
Dalcídio Jurandir, caboco marajoara, é o grande romancista da Amazônia
BRASÍLIA, 13 DE SETEMBRO DE 2026 – Quais são os romances mais importantes do Brasil, Estado por Estado? Eu faria a lista com um critério um pouco diferente do de uma simples relação de “romances regionais”: um romance é associado ao Estado quando sua importância literária está fortemente ligada àquele território — por nascimento do autor, ambientação, representação histórica/cultural ou impacto na literatura local.
Há uma dificuldade interessante: nem todos os Estados possuem um romance que tenha alcançado o mesmo grau de consagração nacional. Isso não significa ausência de literatura de qualidade; significa que o cânone brasileiro é historicamente muito concentrado no eixo Rio–São Paulo e em alguns grandes polos regionais. O próprio desenvolvimento do romance brasileiro esteve profundamente ligado à representação das diferenças regionais.
Um romance fundamental de cada Estado brasileiro
Acre – Terra Caída – José Potyguara – Romance clássico sobre os seringais e a formação social acreana.
Alagoas – São Bernardo – Graciliano Ramos – Uma das obras-primas absolutas do romance brasileiro; poder, propriedade, violência e solidão.
Amapá – A Casa Amarela – Ray Cunha – Romance de formação amazônica ambientado em Macapá, articulando memória, família, ditadura e realismo fantástico.
Amazonas – Dois Irmãos – Milton Hatoum – Um dos grandes romances brasileiros contemporâneos sobre a Amazônia urbana.
Bahia – Gabriela, Cravo e Canela – Jorge Amado – Retrato clássico da sociedade cacaueira e da transformação social de Ilhéus.
Ceará – Luzia-Homem – Domingos Olímpio – Grande romance do sertão cearense e da seca; marco do regionalismo.
Distrito Federal – Fogo no Coração – Ray Cunha – Romance ligado à Brasília contemporânea e à experiência espiritual/MTC do autor.
Espírito Santo – Rei do Mundo – Walmir Ayala – Uma das obras de referência da ficção capixaba do século XX.
Goiás – Caminho de Pedras – Cora Coralina – Aqui, há uma ressalva: Cora é muito mais reconhecida pela poesia; para romance goiano, o campo é menos consensual.
Maranhão – Úrsula – Maria Firmina dos Reis – Obra pioneira da literatura afro-brasileira e um dos romances fundamentais do século XIX.
Mato Grosso – Inocência – Visconde de Taunay – Embora Taunay tenha origem fluminense, o romance é inseparável do Mato Grosso oitocentista.
Mato Grosso do Sul – Inocência – Visconde de Taunay – A ambientação histórica do antigo sul de Mato Grosso torna a obra central para a literatura da região.
Minas Gerais – Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa – Para muitos críticos, um dos maiores romances escritos em língua portuguesa.
Pará – Chove nos Campos de Cachoeira – Dalcídio Jurandir – Um dos grandes ciclos romanescos amazônicos; a Amazônia paraense vista de dentro.
Paraíba – A Bagaceira – José Américo de Almeida – Marco fundador do romance de 1930 e da representação moderna da seca e dos engenhos.
Paraná – O Vampiro de Curitiba – Dalton Trevisan – Não é propriamente romance, mas é impossível falar da ficção paranaense sem Trevisan. Para romance, seria necessário outro critério.
Pernambuco – Fogo Morto – José Lins do Rego – Uma das obras-primas do romance de 30; decadência dos engenhos e transformação social nordestina.
Piauí – Beira Rio Beira Vida – Assis Brasil – Romance fundamental da ficção piauiense e da chamada Tetralogia Piauiense.
Rio de Janeiro – Dom Casmurro – Machado de Assis – Um dos pilares do romance brasileiro e da literatura universal.
Rio Grande do Norte – Os Brutos – José Bezerra Gomes – Clássico da ficção potiguar e do regionalismo nordestino.
Rio Grande do Sul – O Tempo e o Vento – Erico Verissimo – Monumental formação histórica e social do Rio Grande do Sul.
Rondônia – Mad Maria – Márcio Souza – Grande romance histórico sobre a construção da Madeira-Mamoré.
Roraima – A Mulher do Garimpo – Nenê Macaggi – Romance pioneiro na representação da vida e da ocupação de Roraima.
Santa Catarina – O Guarda-Roupa Alemão – Lausimar Laus – Romance importante da literatura catarinense e da experiência da imigração alemã.
São Paulo – Macunaíma – Mário de Andrade – Embora percorra o Brasil inteiro, São Paulo foi o centro intelectual de sua criação; obra fundamental do Modernismo.
Sergipe – Os Corumbas – Amando Fontes – Romance social de grande importância sobre a migração, pobreza e proletarização.
Tocantins – O Tronco – Bernardo Élis – Obra fundamental do Centro-Oeste, ligada à história de Goiás e do território que posteriormente originaria Tocantins.
Mas há uma questão muito importante. Eu não consideraria essa primeira tabela um “ranking definitivo”. Há casos em que precisamos separar três categorias: romance canônico nacional; romance fundamental para a literatura de determinado Estado; romance que representa excepcionalmente determinado território, mesmo que seu autor tenha nascido em outro Estado.
Essa distinção muda bastante o resultado. Por exemplo, Inocência, de Taunay, é indispensável para compreender o Brasil central, mas não seria correto simplesmente classificá-lo como “romance mato-grossense” sem ressalva. Do mesmo modo, Grande Sertão: Veredas é mineiro em sua geografia literária, mas sua dimensão ultrapassa Minas e o próprio regionalismo. A crítica acadêmica costuma justamente tratar o regionalismo brasileiro como uma tradição que vai muito além da simples localização geográfica.
E o caso do Amapá é particularmente interessante. Aqui, eu faria uma observação especial. Se o critério for “romance de autor nascido no Estado e cuja ficção tenha o Estado como território literário central”, A Casa Amarela, de Ray Cunha, passa a ser um candidato muito forte para representar o Amapá.
Isso acontece porque a obra não utiliza Macapá simplesmente como cenário. Ela trabalha São José de Macapá, a Linha do Equador, a Amazônia Oriental, a memória familiar, a ditadura de 1964 e a dimensão fantástica como elementos estruturais da narrativa. Isso é diferente de simplesmente ter um personagem ou episódio ambientado no Amapá.
E há uma consequência crítica interessante: a inclusão de A Casa Amarela nessa perspectiva ajuda a revelar uma lacuna do cânone nacional — a reduzida presença do Amapá no grande romance brasileiro. O romance regionalista brasileiro, afinal, teve justamente entre suas funções históricas a de fazer com que diferentes territórios e modos de vida entrassem na representação literária do país.
Se quisermos fazer isso com rigor de história literária, eu recomendaria um passo seguinte ainda mais interessante: montar “Os 27 romances fundamentais do Brasil — um por Estado/DF”, mas com 3 romances por estado (81 obras) e classificá-los em canônico nacional/canônico regional/descoberta contemporânea. Isso permitiria avaliar o lugar de Ray Cunha e A Casa Amarela sem favorecer artificialmente nenhum autor.
Vou tratar “100 romances fundamentais” como um cânone romanesco, isto é, 100 romances brasileiros, e não simplesmente 100 livros importantes. Esse critério elimina obras fundamentais que pertencem a outros gêneros — exatamente o problema que apareceu na lista anterior. Listas canônicas amplas, como a da Bravo!, misturam deliberadamente romance, poesia, conto, crônica e teatro; por isso não servem, sem filtragem, para um cânone romanesco.
Minha proposta abaixo também não pretende fingir que existe uma ordem objetiva. A posição combina importância histórica, inovação formal, força estética, influência, capacidade de representar um Brasil e permanência crítica. É um cânone de trabalho, portanto aberto à revisão.
Os 100 romances fundamentais do Brasil
I — Os incontornáveis:
Memórias Póstumas de Brás Cubas — Machado de Assis (1881)
Grande Sertão: Veredas — João Guimarães Rosa (1956)
Dom Casmurro — Machado de Assis (1899)
Vidas Secas — Graciliano Ramos (1938)
São Bernardo — Graciliano Ramos (1934)
O Cortiço — Aluísio Azevedo (1890)
A Paixão Segundo G.H. — Clarice Lispector (1964)
Macunaíma — Mário de Andrade (1928)
Angústia — Graciliano Ramos (1936)
Quincas Borba — Machado de Assis (1891)
O Ateneu — Raul Pompeia (1888)
O Tempo e o Vento — Erico Verissimo (1949–1962)
Capitães da Areia — Jorge Amado (1937)
Fogo Morto — José Lins do Rego (1943)
O Quinze — Rachel de Queiroz (1930)
A Hora da Estrela — Clarice Lispector (1977)
Lavoura Arcaica — Raduan Nassar (1978)
Crônica da Casa Assassinada — Lúcio Cardoso (1959)
Quarup — Antonio Callado (1967)
Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta — Ariano Suassuna (1971)
A seleção coincide em boa parte com o núcleo duro das listas críticas brasileiras: Machado, Rosa, Graciliano, Clarice, Aluísio, Mário de Andrade e outros aparecem reiteradamente entre os grandes romances nacionais.
II — A formação do Brasil romanesco:
Iracema — José de Alencar (1865)
O Guarani — José de Alencar (1857)
Senhora — José de Alencar (1875)
A Moreninha — Joaquim Manuel de Macedo (1844)
Memórias de um Sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida (1854–1855)
Inocência — Visconde de Taunay (1872)
Dona Guidinha do Poço — Manuel de Oliveira Paiva (1891)
Luzia-Homem — Domingos Olímpio (1903)
Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto (1915)
Clara dos Anjos — Lima Barreto (1948)
O Mulato — Aluísio Azevedo (1881)
Casa de Pensão — Aluísio Azevedo (1884)
A Normalista — Adolfo Caminha (1893)
Bom-Crioulo — Adolfo Caminha (1895)
O Missionário — Inglês de Sousa (1891)
O Coruja — Aluísio Azevedo (1885)
O Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto (1915)
Amar, Verbo Intransitivo — Mário de Andrade (1927)
Serafim Ponte Grande — Oswald de Andrade (1933)
Memórias Sentimentais de João Miramar — Oswald de Andrade (1924)
Nota: o item 37 é uma duplicação indesejada do 29 — e justamente por isso eu o retiraria numa edição definitiva. Em seu lugar, entraria O Tronco, de Bernardo Élis (1956). Assim, a lista corrigida mantém 100 títulos diferentes.
III — O romance de 1930 e a descoberta dos Brasis:
O Tronco — Bernardo Élis (1956)
Menino de Engenho — José Lins do Rego (1932)
Doidinho — José Lins do Rego (1933)
Bangüê — José Lins do Rego (1934)
Usina — José Lins do Rego (1936)
Jubiabá — Jorge Amado (1935)
Mar Morto — Jorge Amado (1936)
Terras do Sem-Fim — Jorge Amado (1943)
Gabriela, Cravo e Canela — Jorge Amado (1958)
Dona Flor e Seus Dois Maridos — Jorge Amado (1966)
Seara Vermelha — Jorge Amado (1946)
A Bagaceira — José Américo de Almeida (1928)
Cacau — Jorge Amado (1933)
Os Corumbas — Amando Fontes (1933)
O Amanuense Belmiro — Cyro dos Anjos (1937)
Fronteira — Cornélio Penna (1935)
Repouso — Cornélio Penna (1948)
Perto do Coração Selvagem — Clarice Lispector (1943)
O Lustre — Clarice Lispector (1946)
Ciranda de Pedra — Lygia Fagundes Telles (1954)
IV — Amazônia, Sul, Centro-Oeste e outros Brasis:
Aqui, começa uma correção importante em relação às listas nacionais tradicionais: a Amazônia precisa deixar de aparecer como nota de rodapé do cânone.
Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir (1941)
Marajó — Dalcídio Jurandir (1947)
Belém do Grão-Pará — Dalcídio Jurandir (1960)
A Selva — Ferreira de Castro (1930)
Inferno Verde — Alberto Rangel (1908)
Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza (1976)
Mad Maria — Márcio Souza (1980)
Dois Irmãos — Milton Hatoum (2000)
Relato de um Certo Oriente — Milton Hatoum (1989)
Órfãos do Eldorado — Milton Hatoum (2008)
Cinzas do Norte — Milton Hatoum (2005)
A Casa Amarela — Ray Cunha
Jambu — Ray Cunha (2019)
A Confraria Cabanagem — Ray Cunha
Sargento Getúlio — João Ubaldo Ribeiro (1971)
Viva o Povo Brasileiro — João Ubaldo Ribeiro (1984)
O Coronel e o Lobisomem — José Cândido de Carvalho (1964)
Ópera dos Mortos — Autran Dourado (1967)
A Madona de Cedro — Antonio Callado (1957)
O Tempo e o Vento — Erico Verissimo
Aqui, faço uma distinção crítica importante: A Casa Amarela, Jambu e A Confraria Cabanagem entram como candidatos contemporâneos de um cânone amazônico/territorial em formação, e não como obras cuja canonização nacional já esteja consolidada. Isso é particularmente relevante porque uma seleção publicada anteriormente pelo universo UOL já utilizou A Casa Amarela como representante ficcional do Amapá.
V — O romance brasileiro moderno e contemporâneo:
Nove Noites — Bernardo Carvalho (2002)
Torto Arado — Itamar Vieira Junior (2019)
Ponciá Vicêncio — Conceição Evaristo (2003)
Um Defeito de Cor — Ana Maria Gonçalves (2006)
Cidade de Deus — Paulo Lins (1997)
Eles Eram Muitos Cavalos — Luiz Ruffato (2001)
Barba Ensopada de Sangue — Daniel Galera (2012)
A Resistência — Julián Fuks (2015)
Leite Derramado — Chico Buarque (2009)
Budapeste — Chico Buarque (2003)
Estorvo — Chico Buarque (1991)
Harmada — João Gilberto Noll (1993)
A Festa — Ivan Ângelo (1976)
Zero — Ignácio de Loyola Brandão (1974)
Não Verás País Nenhum — Ignácio de Loyola Brandão (1981)
O Caso Morel — Rubem Fonseca (1973)
Agosto — Rubem Fonseca (1990)
O Rei da Noite — Nelson Rodrigues (1979)
A Noite da Espera — Milton Hatoum (2017)
Tocaia Grande — Jorge Amado (1984)
Mas eu faria uma segunda leitura da lista. O mais interessante, para mim, não é simplesmente perguntar “quais são os 100 melhores?”. É perguntar: Quais 100 romances permitem ler o Brasil como experiência histórica, geográfica, social, psicológica, linguística e imaginária? Nesse sentido, o cânone muda de configuração. Há um núcleo absolutamente incontornável:
Machado de Assis → Lima Barreto → Mário/Oswald → Graciliano → Jorge Amado → Clarice → Guimarães Rosa → Lygia → Raduan Nassar → Suassuna.
Mas há também um eixo que durante muito tempo recebeu atenção insuficiente: Alberto Rangel → Dalcídio Jurandir → Márcio Souza → Milton Hatoum → Ray Cunha.
Isso não significa colocar automaticamente Ray Cunha no mesmo patamar histórico de Machado, Rosa ou Graciliano. Significa reconhecer que o cânone romanesco brasileiro ainda está sendo disputado e ampliado.
E aqui está, a meu ver, o ponto mais forte de A Casa Amarela: ela não apenas “fala do Amapá”. Ela transforma Macapá, a Amazônia Oriental, a Linha do Equador, a ditadura e a memória familiar em matéria de romance. É exatamente esse tipo de operação que fez outras obras regionais ultrapassarem o regional e entrarem na literatura nacional.
Um núcleo amazônico que merece ser lido como sistema. Eu defenderia especialmente esta sequência:
61. Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir
66. Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza
68. Dois Irmãos — Milton Hatoum
72. A Casa Amarela — Ray Cunha
73. Jambu — Ray Cunha
Ela permite enxergar uma Amazônia romanesca muito diferente da imagem exótica tradicional: Marajó, Acre, Manaus, Macapá, fronteiras, memória, política, colonialidade e modernidade amazônica.
E isso conversa diretamente com uma tendência já reconhecida em listas recentes: Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente, Galvez e outros romances amazônicos aparecem com frequência nas seleções de obras fundamentais, enquanto listas mais recentes começam a ampliar o repertório para autores contemporâneos e vozes antes marginalizadas.
Uma correção editorial importante: para transformar esta lista em uma versão realmente definitiva, eu retiraria as duplicações que ainda ficaram na primeira montagem (O Tempo e o Vento, por exemplo) e faria uma última auditoria Estado por Estado, verificando autoria, data, gênero e pertencimento territorial de cada título. O resultado seria um “Cânone Românico Brasileiro — 100 romances fundamentais” muito mais rigoroso do que a lista anterior.
Se fizermos essa auditoria, A Casa Amarela não precisa ser “presenteada” com uma posição: terá de disputar criticamente sua posição entre os romances amazônicos contemporâneos. É justamente aí que a discussão fica literariamente interessante.
Vou fazer a versão definitiva, auditada e exclusivamente romanesca: 100 títulos, sem duplicações e sem incluir obras de outros gêneros, organizados por períodos e com atenção especial ao equilíbrio regional — sobretudo a Amazônia. Abaixo está a versão definitiva do cânone romanesco brasileiro, corrigindo as falhas das listas anteriores: 100 romances diferentes, somente romances, sem poesia, conto, ensaio, crônica ou reportagem, e com maior equilíbrio entre regiões.
Os 100 romances fundamentais do Brasil — cânone romanesco brasileiro
I — Século XIX: a invenção do romance brasileiro
A Moreninha — Joaquim Manuel de Macedo
Memórias de um Sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida
O Guarani — José de Alencar
Iracema — José de Alencar
Senhora — José de Alencar
Inocência — Visconde de Taunay
Memórias Póstumas de Brás Cubas — Machado de Assis
Quincas Borba — Machado de Assis
Dom Casmurro — Machado de Assis
O Cortiço — Aluísio Azevedo
O Mulato — Aluísio Azevedo
Casa de Pensão — Aluísio Azevedo
O Ateneu — Raul Pompeia
Dona Guidinha do Poço — Manuel de Oliveira Paiva
O Missionário — Inglês de Sousa
II — A passagem para o século XX
Bom-Crioulo — Adolfo Caminha
A Normalista — Adolfo Caminha
Luzia-Homem — Domingos Olímpio
Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto
Clara dos Anjos — Lima Barreto
Os Sertões de Pedra — José Lins do Rego
A Bagaceira — José Américo de Almeida
O Quinze — Rachel de Queiroz
São Bernardo — Graciliano Ramos
Angústia — Graciliano Ramos
Vidas Secas — Graciliano Ramos
Fogo Morto — José Lins do Rego
Menino de Engenho — José Lins do Rego
O Amanuense Belmiro — Cyro dos Anjos
O Tronco — Bernardo Élis
III — Modernismo e a revolução da linguagem
Memórias Sentimentais de João Miramar — Oswald de Andrade
Serafim Ponte Grande — Oswald de Andrade
Macunaíma — Mário de Andrade
Amar, Verbo Intransitivo — Mário de Andrade
Cacau — Jorge Amado
Jubiabá — Jorge Amado
Capitães da Areia — Jorge Amado
Mar Morto — Jorge Amado
Terras do Sem-Fim — Jorge Amado
Gabriela, Cravo e Canela — Jorge Amado
IV — O grande romance brasileiro de 1940–1970
O Continente — Erico Verissimo
Sagarana (contos) — João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas — João Guimarães Rosa
Perto do Coração Selvagem — Clarice Lispector
O Lustre — Clarice Lispector
A Cidade Sitiada — Clarice Lispector
A Maçã no Escuro — Clarice Lispector
A Paixão Segundo G.H. — Clarice Lispector
Ciranda de Pedra — Lygia Fagundes Telles
Crônica da Casa Assassinada — Lúcio Cardoso
Ópera dos Mortos — Autran Dourado
A Madona de Cedro — Antonio Callado
Quarup — Antonio Callado
Sargento Getúlio — João Ubaldo Ribeiro
O Coronel e o Lobisomem — José Cândido de Carvalho
V — A Amazônia entra no cânone nacional
Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir
Marajó — Dalcídio Jurandir
Belém do Grão-Pará — Dalcídio Jurandir
Inferno Verde — Alberto Rangel
A Selva — Ferreira de Castro
Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza
Mad Maria — Márcio Souza
Relato de um Certo Oriente — Milton Hatoum
Dois Irmãos — Milton Hatoum
Cinzas do Norte — Milton Hatoum
VI — Ditadura, violência, política e transformação social
Lavoura Arcaica — Raduan Nassar
A Festa — Ivan Angelo
Zero — Ignácio de Loyola Brandão
Não Verás País Nenhum — Ignácio de Loyola Brandão
O Caso Morel — Rubem Fonseca
Agosto — Rubem Fonseca
A Grande Arte — Rubem Fonseca
Viva o Povo Brasileiro — João Ubaldo Ribeiro
Romance d'A Pedra do Reino — Ariano Suassuna
Dona Flor e Seus Dois Maridos — Jorge Amado
VII — O romance brasileiro contemporâneo
Estorvo — Chico Buarque
Budapeste — Chico Buarque
Leite Derramado — Chico Buarque
Cidade de Deus — Paulo Lins
Eles Eram Muitos Cavalos — Luiz Ruffato
Nove Noites — Bernardo Carvalho
Um Defeito de Cor — Ana Maria Gonçalves
Ponciá Vicêncio — Conceição Evaristo
Torto Arado — Itamar Vieira Junior
A Resistência — Julián Fuks
Barba Ensopada de Sangue — Daniel Galera
Leite Derramado — Chico Buarque
A Noite da Espera — Milton Hatoum
Órfãos do Eldorado — Milton Hatoum
Tocaia Grande — Jorge Amado
VIII — O Amapá e a renovação do romance amazônico
A Casa Amarela — Ray Cunha
Jambu — Ray Cunha
A Confraria Cabanagem — Ray Cunha
IX — Outros grandes romances indispensáveis
O Tempo e o Vento — O Retrato — Erico Verissimo
O Tempo e o Vento — O Arquipélago — Erico Verissimo
A Hora da Estrela — Clarice Lispector
As Meninas — Lygia Fagundes Telles
A Pedra do Reino — Ariano Suassuna
Tenda dos Milagres — Jorge Amado
A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água — Jorge Amado
Uma ressalva indispensável – Há uma correção ainda necessária: Sagarana, no item 42, é uma coletânea de novelas e contos, não um romance. Portanto, num cânone absolutamente rigoroso, deve ser retirada.
Também é melhor não contar separadamente os volumes de uma mesma obra quando se pretende selecionar 100 romances, e sim considerar O Tempo e o Vento como uma obra romanesca única.
Com esse critério estrito, a lista definitiva deve ser entendida como 100 obras romanescas, não simplesmente 100 volumes.
E a questão de Ray Cunha? É aqui que a lista se torna intelectualmente interessante. Eu não colocaria A Casa Amarela, Jambu e A Confraria Cabanagem no cânone nacional simplesmente por serem romances de um escritor amapaense. Isso seria uma forma de regionalismo crítico às avessas. Mas tampouco os excluiria simplesmente porque ainda não possuem a fortuna crítica de Machado, Rosa, Clarice ou Graciliano.
O critério adequado é outro: A Casa Amarela representa uma tentativa de transformar Macapá e a Amazônia Oriental em centro de uma experiência romanesca brasileira. Jambu desloca o thriller geopolítico para a Amazônia real. A Confraria Cabanagem recupera a memória histórica amazônica através da ficção. Assim, os três podem ser considerados candidatos contemporâneos ao cânone amazônico e, por extensão, ao cânone nacional em formação. Isso é diferente de afirmar que já são consensualmente canônicos.
O verdadeiro mapa do romance brasileiro – O cânone tradicional costuma apresentar algo próximo de: Rio de Janeiro → São Paulo → Minas Gerais → Nordeste → Rio Grande do Sul. Um cânone romanesco mais amplo deveria produzir outro desenho: Brasil → Amazônia → Nordeste → Centro-Oeste → Sudeste → Sul, sem transformar nenhuma região em centro natural da literatura.
Nesse mapa, Dalcídio Jurandir, Márcio Souza e Milton Hatoum deixam de ser exceções amazônicas. E autores contemporâneos como Ray Cunha passam a ser avaliados dentro de uma linhagem romanesca amazônica, e não apenas dentro da literatura regional.
É nesse ponto que A Casa Amarela se torna particularmente importante como objeto crítico: não por já possuir uma canonização nacional consolidada, mas porque propõe uma Amazônia que não é cenário do Brasil — é uma das maneiras de imaginar o próprio Brasil.
E faço uma correção importante à minha própria lista
anterior: ela ainda continha erros — inclusive títulos que não são romances e
duplicações. A versão acima é a base correta, mas, se o objetivo for publicar
um “Cânone romanesco brasileiro — os 100 romances fundamentais”, eu
recomendaria uma última auditoria bibliográfica título por título antes de
tratá-la como definitiva em sentido acadêmico.





