RAY CUNHA
BRASÍLIA, 19 DE JUNHO DE 2026 – Frequentei a casa de
Walter Júnior Santos do Carmo quando era criança e fui colega dele durante o
curso ginasial no Colégio Amapaense. Em 1996, trabalhei como redator sob seu
comando na Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Belém. Sou dois
anos mais velho do que ele. Embora morando em cidades diferentes a maior parte
das nossas vidas, continuamos amigos.
Walter nasceu no embrionário bairro do Laguinho, em 8 de
janeiro de 1956, filho dos pioneiros Walter Pereira do Carmo e Helita Santos do
Carmo. Na TV Liberal, repetidora da TV Globo, em Belém/PA, começou como repórter
e terminou como diretor de jornalismo. Em 1977, é laureado com o Troféu Edgar
Proença, de Melhor Repórter de Externa do Pará. Em 1979, trabalha como
correspondente da Rede Bandeirantes no Oeste do Paraná.
Em 1981, assume a diretoria geral da TV Amapá e inaugura a
atual sede da emissora. Em 1982, viabiliza a transmissão integral da Copa do
Mundo daquele ano para o Amapá. Participa do processo de afiliação da TV Amapá
à Rede Globo e implanta a TV Cabralzinho na cidade de Amapá.
Além de jornalista é publicitário, com mais de três décadas
de experiência em produção, criação, roteiro, direção de peças publicitárias,
comunicação institucional de governo, marketing político e corporativo.
Em 1983, funda a Jr. Propaganda e Promoções, a primeira
agência de publicidade do Amapá. No mesmo ano, realiza campanha publicitária da
transformação do Território Federal do Amapá em Estado e preside o júri do
concurso que escolheu a Bandeira e o Brasão de Armas do Amapá. Produz o
documentário A Canção do Amapá, sobre o músico Oscar Santos e o hino do
novo Estado.
Ainda em 1983, produz os documentários: O Espetáculo das
Águas, para divulgar a Cachoeira de Santo Antônio e a Pororoca – as imagens
da pororoca, em coprodução com a Rede Globo, foram exibidas pela primeira vez
no Fantástico –; Julião Ramos, o Patriarca do Laguinho; Marabaixo;
O Quilombo do Curiaú; e O Chorinho Mágico de Amilar Brenha.
Em 1989, é finalista do Prêmio Profissionais do Ano, da Rede
Globo, com o vídeo A Paz Manda no Líder, para os Supermercados Líder. Em
1994, cria o projeto do Macapá Folia e do bloco Malagueta, em Macapá. Em 1995,
conquista a Medalha de Ouro do Prêmio Colunistas, o Oscar da propaganda do
Norte e Nordeste, pela campanha política de Almir Gabriel para governador do
Pará. De 1993 a 1996, assume a coordenadoroa de Comunicação Social da
Prefeitura de Belém.
Em 2000, conquista o prêmio de melhor documentário no Primeiro
Fest Vídeo. Em 2006, ganha o prêmio de Diretor do Melhor Vídeo Clipe Paraense
na III Mostra Curta Pará Cine Brasil, com o clipe La Madame, das bandas
La Pupuña e Madame Satan, produzido para a TV Cultura. De 2005 a 2007, trabalha
como assessor de Comunicação Social do Governo do Pará.
Mas seu maior feito é ser um dos idealizadores e fundadores
do Instituto Memorial Amapá, instituição que preside. O instituto foi fundado
em maio de 2015 com a missão de resgatar, preservar e defender a história, a
cultura, a memória e a identidade do povo amapaense, por meio da trajetória de
pioneiros e personalidades que ajudaram a construir o Estado.
A ação do instituto, integrado por pioneiros e descendentes
de famílias tradicionais, prevê a preservação do patrimônio histórico, tanto
material quando imaterial; a defesa de símbolos; e a realização de encontros
anuais de pioneiros e descendentes para manter vivas as tradições e homenagear figuras
históricas do Estado, a Academia dos Notáveis Edificadores do Amapá, integrada
por 70 cadeiras, homens e mulheres que deixaram marcas na construção do Amapá.
Entre os símbolos da história do Amapá há uma seringueira,
intimamente ligada a um dos maiores artistas plásticos do Amapá e do Brasil:
Olivar Cunha. A seringueira a que me refiro foi imortalizada no romance A CASA
AMARELA, mas é no romance ensaístico JAMBU que ela é materializada. Segue
capítulo de JAMBU que a explica.
ALÉM DOS ESTUDANTES e expectadores em geral, que disputaram
uma das duas mil poltronas da luxuosa casa de espetáculos, a aristocracia
amapaense estava em peso no Teatro Açaí, do Hotel Caranã, muitos deles em
roupas de luxo, algumas, espalhafatosas, lembrando sapos encasacados, inchados
de tanta comida e dinheiro, guardado em bancos e malas; se fossem postos de
cabeça para baixo não cairia um níquel sequer, pois quem é viciado em dinheiro
esconde-o. Alguns estavam tão inchados que se alguém ficasse olhando para eles
esperaria ouvi-los coaxar.
Quando a professora Walkíria Ferreira Lima entrou no palco,
os músicos da Orquestra da Escola de Música do Amapá levantaram-se e o público
também, aplaudindo-a em pé. De porte frágil, agigantava-se no púlpito. Nascera
em Manaus, onde se formou em música, começando os estudos de piano aos 10 anos
de idade. Chegou a Macapá na década de 1950, e começou a lecionar canto
orfeônico na Escola Barão do Rio Branco e na Escola Industrial do Amapá, antes
da criação do Conservatório Amapaense de Música, onde ensinou piano e solfejo.
Walkíria Lima foi ainda uma das fundadoras da Academia de Letras do Amapá,
patrocinando a cadeira 40. Casou-se com o mágico Isnard Brandão Lima e teve um
único filho, o poeta manauara-macapaense Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas Para a Madrugada e Malabar Azul. Isnard sentara-se na
primeira fila. Pálido, olhos amendoados e olhar intenso, cabeleira penteada
como a de Castro Alves, bigode, fumante inveterado e dipsomaníaco, lembrava um
misto de toureiro e dançarino de tango. Ao lado dele, sentara-se o gênio do
pincel e da espátula Olivar Cunha, que assinava os 21 painéis que compunham a
exposição oficial do Festival de Gastronomia do Pará e Amapá.
A etimologia da palavra “cunha” é remota. Vem do latim
“cuneus”. Colonizadores romanos fixaram-se na Península Ibérica, que, mais
tarde, foi invadida pelos visigodos e depois pelos árabes, em 711 DC. No
decorrer dos séculos e várias invasões, a língua latina foi perdendo a pureza,
surgindo as línguas neo-latinas, entre as quais o português. A palavra “cunha”
tem conotação guerreira: fender, ferir madeira e pedra. O avô paterno de Olivar
Cunha se chamava Manuel Raimundo Cunha, nasceu em 1875, em Portugal, e migrara
para Pernambuco; e sua avó paterna, Rosa Maria Cunha, nasceu em 1882, em
Sobral, Ceará, e faleceu em Manaus, em 1973, aos 91 anos, vítima de congestão;
era negra. Os bisavós maternos do grande pintor eram Domingos Pereira Silva,
pernambucano, e Francisca de Oliveira Bessa, cearense; e seus avós maternos
eram Pedro Pereira Silva (1895-1952), apelidado de Pedro Correto, pela sua
retidão de caráter, e Alice Pereira Silva (1898-1961), nascida na cidade do
Crato, Ceará. Pedro Correto era moreno-claro e de cabelos encarapinhados,
feição negroide, cearense; migrou, ainda rapaz, para a Amazônia, atraído pela
febre da borracha no início do século 20. Quando se casou, tornara-se
fazendeiro abastado e residia em Porto Velho, mas vendeu todos os seus bens e
entrou na Companhia Ford Motors, em Fordlândia, então distrito de Santarém,
Pará. Em 1932, separou-se da esposa, Alice Pereira Silva, e mudou-se para
Belém, onde morreu. Nos últimos anos da sua vida foi guarda-costas do general
Magalhães Barata, nas suas andanças políticas pelo interior do Pará. Magalhães
Barata foi revolucionário do Movimento Tenentista, duas vezes governador e duas
vezes interventor federal no Pará. Alice Pereira Silva continuou em Fordlândia.
Branca, loura e de olhos claros, era uma mulher com a fibra necessária para
enfrentar o Inferno Verde. O início da vida do casal foi nas proximidades do
rio Abunã, tributário pela margem esquerda do rio Madeira, no extremo oeste da
Amazônia; tiveram nove filhos, a maioria deles natimortos, assassinados ou
mortos por doença na juventude. A caçula era Marina Pereira Silva Cunha, “a
mulher mais bonita, forte, corajosa, poderosa e eterna como as rosas que eu já
tive a oportunidade de conhecer” – escreveu João do Bailique, irmão de Olivar
Cunha.
Marina Pereira Silva Cunha nasceu na região do rio Abunã, em
2 de março de 1924. Ela se casou em Belterra, em 22 de junho de 1947, com João
Raimundo Cunha, que nasceu em 16 de maio de 1915, em Sobral, Ceará. Ainda
criança, migrou para Santarém, com a mãe, Rosa Maria Cunha, e três irmãs; seus
irmãos morreram em tenra idade. Perdeu cedo o pai e começou a trabalhar na
lavoura. Foi capataz de quadreiro, que era o capinador de campo de seringal, e
serrador, na Companhia Ford Motors, no distrito de Belterra, e depois começou a
trabalhar nos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul,
em Belterra, em 1 de setembro de 1946; depois na cidade de Santarém, e,
finalmente, em Macapá, onde chegou em janeiro de 1950, sucedido pela família,
em outubro do mesmo ano. Trabalhou nos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul até 15
de outubro de 1972. Em 1 de maio de 1973, começou a trabalhar na empresa Irmãos
Zagury e Cia. Ltda., como ajudante de mecânico, até 6 de março de 1977, quando
se aposentou, somando 35 anos de serviço ativo.
Alguns trechos da crônica “Papai faz 100 anos”,
que João do Bailique publicou na Trópico
Úmido:
“Alguns dos meus ídolos – Ernest
Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry – manifestam duas
características em comum: são escritores classe A e foram homens de ação. Um
homem de ação é aquele que pensa e age simultaneamente, e também não vive quieto,
pois está sempre metido em alguma aventura. A própria vida é sua grande
aventura, até que, no caminho, é derrotado pela barreira da dimensão física,
mas não é vencido, e passa a povoar o universo azul. Meu pai, o maior dos meus
ídolos, não era escritor, mas era homem de ação, e me contou histórias eternas.
“Meu pai media 1,68, era seco e forte,
o rosto oval, olhos castanhos e oblíquos, e usava uma loção à base de pinho
após raspar, com navalha, o rosto, deixando apenas o bigode. Foi o homem mais
corajoso que já encontrei; nada o intimidava. Internava-se na selva dias
seguidos, sozinho, e era capaz de meter uma bala no buraco de outra, a mais de
100 metros de distância. Ele não era escritor, mas escreveu alguns poemas, que
se perderam no tempo.
“Um dia, peguei os originais dos poemas
que o papai escrevia de vez em quando e li alguns na Rádio Educadora, em um
programa do Luiz Tadeu Magalhães. Papai soube e me passou uma reprimenda. Mas
senti, ali, naquele momento, que, de alguma forma, ele não se importou muito
que eu tivesse lido publicamente seus poemas, e isso me deixou feliz, pois
agradar o ídolo é para o fã o sonho mais ousado.
“Papai não era escritor, mas foi um
extraordinário contador de histórias. Leu Tarzan,
de Edgar Rice Burroughs, e contava a história para nós, meus irmãos e eu, como
se Tarzan fosse real. Porém o que mais me fascinava eram as aventuras do
próprio papai, especialmente quando se internou na selva profunda e foi atraído
por uma sucuri. Tonto, quase desmaiando, foi salvo pelo seu anjo da guarda;
conseguiu avistar a cabeça da sucuri, apoiou o rifle numa forquilha e estourou
a cabeça da serpente, uma cabeçorra do tamanho de uma lata de leite Ninho.
“Papai chefiava todo o trabalho pesado
no Aeroporto de Macapá, nos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, como faz-tudo,
oficialmente como feitor de pista, sinalizando a descida e subida dos Douglas
DC-3, abastecia os aviões e os despachava. A primeira vez que o vi fazendo isso
fiquei deslumbrado, e quando fui autorizado a entrar no avião foi como se
houvesse entrado numa nave espacial. Meu pai conversava com os pilotos da nave
e entrava no avião como se estivesse em casa, e serviram-me sanduíches e
biscoitos inimagináveis.
“Apenas uma vez o vi fraquejar. Foi
quando a tragédia invadiu a Casa Amarela, a casa da minha infância, na esquina
das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliézer Levy, onde hoje uma seringueira
plantada por meu pai no ano de nascimento do gênio do pincel Olivar Cunha,
intercepta o muro do Colégio Amapaense. Foi quando anunciaram a morte do meu
irmão Francisco Pereira Cunha. Era 22 de novembro de 1965. Francisco tinha 18
anos e era belo como Zeus, e imortal como todo jovem. Meu pai foi atingindo por
um raio. Caiu numa cadeira, mole, sem tônus, os olhos, sempre tão interessados
pela vida, gritavam de dor. E logo depois veio o segundo choque: o corpo
chegando. Não compreendi bem aquilo. Para mim, a matéria era para sempre, e só
fui entender o que se passara quando, no Cemitério São José de Macapá, vi todos
se sacudindo em choro, como chuva que não passa nunca.
“Meu pai morreu com a mesma idade que
Ernest Hemingway, aos 61 anos, mas, naquela época, eu já conversava com Papa
nos bares da mente, quando o desejo de também bater longos papos com papai
começou a se avolumar na minha alma. Meu quarto, na Casa Amarela, a casa da
minha infância, era conhecido como Quartinho; é lá que costumo encontrar-me com
papai, Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry e todos os
mortos que amo, num bate-papo interminável.”
Em outro artigo de memórias, João do
Bailique escreveu sobre o gênio Olivar Cunha:
“Nasceu pesando 3,5 quilos e mamou até aos dois anos. Depois
que começou a articular as primeiras palavras, quando queria mamar, pedia
“piti”. Pode ser por isso que se tornou o xodó da mãe, a bela Marina Pereira
Silva Cunha. Morávamos na Rua Iracema Carvão Nunes, esquina com a Rua Eliezer
Levy, numa casa amarela, remanescente do antigo aeroporto, ao lado do Colégio
Amapaense. No dia do nascimento do Olivar, 31 de março de 1952, nosso pai, João
Raimundo Cunha, plantou a Seringueira que intercepta o muro oeste do Colégio
Amapaense, na Rua Eliezer Levy, e que escapou de ser decepada graças à
intervenção do engenheiro florestal Luiz Guilherme Dias Façanha, nascido em 18
de julho de 1952, e amigo de infância do Olivar.
“Em 1983, Luiz Façanha trabalhava como especialista em
seringueira (Hevea brasiliensis) na extinta Superintendência da Borracha
(Sudhevea), um dos órgãos federais absorvidos pelo Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A Seringueira apresentava
uma grande lesão no tronco. Debilitada, foi atacada por fungos e insetos.
Segundo Luiz Façanha, estudantes fizeram forte pressão junto à Prefeitura de
Macapá e ao Governo do Estado para que autorizassem abater a árvore, alegando
risco de vida para quem por ali transitava. Foi então que o repórter da Rede
Globo, Antônio de Pádua, solicitou a Luiz Façanha que fizesse uma gravação no
local, para dar sua opinião sobre o caso. Após minuciosa inspeção, Façanha
verificou que a árvore estava se recuperando do ferimento, embora muito
lentamente, e em razão disso posicionou-se contrário ao abate. “É claro que
pesou na minha decisão todo o histórico da nossa infância brincando em volta
daquela árvore: Olivar, João, Chico e eu.” O fato é que a Rede Globo e Luiz
Façanha salvaram a Seringueira. Minha convivência com o Olivar foi,
basicamente, no nosso período de infância. Estudamos juntos no então Grupo
Escolar Anexo da Escola Normal e lá fizemos todo o Curso Primário, nos idos dos
anos 1950/1960. Após as aulas, dividíamos nosso tempo brincando pelos quintais
do seu João (pai do Olivar), correndo por cima dos muros e se pendurando nas
árvores do quintal. Tempo bom que não volta mais” – lembra Luiz Façanha.
“Olivar Cunha foi uma dessas crianças que as mulheres adoram
apertar nos braços, beijar, acariciar. Não lembro quantos anos ele tinha quando
sua então professora, que morava sozinha e que se manifesta, hoje, na minha
memória, como uma mulata sensualíssima, se ofereceu para dar reforço escolar a
ele na sua casa e ele não quis de jeito algum, porque, segundo pude intuir,
mais tarde, de declarações suas, ela era exageradamente carinhosa para com ele,
e ele ainda muito criança. O gênio do artista plástico começou a se revelar no
curso primário; seus trabalhos eram formalmente impecáveis, e já revelavam
criatividade. Encarava também os trabalhos de educação artística de sua irmã
Lindomar Cunha, então se preparando para trabalhar no jardim de infância.
Pré-adolescente, começou a brincar com seu pequeno prato de massas coloridas e
pincéis de tamanhos variados.
“Aos 14 anos, em 1966, ele já pintava profissionalmente,
saía à noite e bebia. Aos 15, expôs pela primeira vez, e andava na companhia
dos artistas mais conhecidos da cidade: o poeta Isnard Brandão Lima Filho, o
escritor Alcy Araújo e o pintor Raimundo Peixe, além do nosso irmão Pedro
Cunha, então com 22 anos, e que era, naquele momento, uma espécie de guru para
o Olivar.
“Olivar Cunha se tornou um rapaz muito bonito, apolíneo,
ariano, bom de porrada que só ele mesmo, hedonista, e que cada vez mais
dominava as cores e a luz. Sua filosofia era: “Viver é um tesão”. Podia tomar
um litro de Run Bacardi sozinho ao longo de um bate-papo, podia sair para a
porrada contra dois oponentes e se saía bem, podia fumar três maços de cigarros
em uma noite, beber durante 48 horas seguidas, pintar madrugada adentro. Na
juventude, era beberrão, machão, idealista, bom de porrada, belo, amado, adorado,
incansável como Pablo Picasso e esquizofrênico como Van Gogh.
“Uma madrugada, um marchand francês acordou todo mundo, em
casa, porque teria que viajar para a França naquela manhã e queria porque
queria levar alguns quadros do Olivar, e levou o que estava disponível. Acho
que foi mais ou menos por essa época que ele pintou os Beatles, 1969. Juntou na
tela vários momentos diferentes do Beatles, recortando fotos de várias
revistas, reproduzindo-as naquele óleo. Mais ou menos em 1970, vendeu o quadro
dos Beatles para Luiz Façanha, que o mantém na casa dele, no Recife, onde mora.
“Nas décadas de 1970/1980, casado com Maria da Glória
Nascimento Cunha, o artista morou em Belém, quando produziu algumas dezenas de
telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos
contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são
chocantes. Olivar e Glória namoraram durante 7 anos e foram casados por 7 anos.
Ela partiu cedo para o mundo espiritual. Em Belém, Olivar ganhou um novo nome:
Lili, batizado pela sua filha Tatiana, assim que ela aprendeu a falar, e que
lhe deu um neto: Bernardo Cunha Barros. Lili teve outra princesa com Glória:
Taiana, que lhe deu um neto: Alexandre Cunha de Sousa.
“Viúvo, Lili foi para o Rio de Janeiro, estudar artes
plásticas no Parque Lage. De volta a Macapá, conhece a capixaba Célia Maria
Rocha Cunha, em 1986, casam-se no ano seguinte, e, em agosto de 1988, mudam
para o Espírito Santo, onde nascem os filhos Ângelo Ticiano Rocha Cunha e
Luciano Rocha Cunha.
“Nos anos de 1990, consolida sua posição como um dos grandes
expressionistas contemporâneos, com a série de animais agonizando nos esgotos
das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre a baía de
Guanabara – talvez o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar
Cunha. Ele pintou esse quadro em três meses, em 1992, em seu apartamento na
praia atlântica de Jacaraípe, distrito do município de Serra, na grande Vitória
do Espírito Santo. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel,
de 120 por 100 centímetros. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat
Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacaraípe, após pesquisa sobre a
devastação da flora e da fauna do Amapá, do Pará e do Pantanal. Depois que se
mudou para Jacaraípe, começou também a recuperar obras sacras de igrejas da
região.
“Apesar de contar com o mar onde foi fisgado o maior marlim
azul do mundo, o Atlântico ao largo do Espírito Santo, é a Amazônia que pulsa
nas telas do gênio, recriada à base de espilantol, o princípio ativo do jambu.
O tacacá, que leva jambu, é gostoso servido naquele momento de transição em que
a tarde escoa como um rio de planície, que vai se esvaindo, lentamente, ao
mergulhar nas luzes do anoitecer. É o espilantol que dá aquela sensação de
dormência nas papilas gustativas, ativando as papilas da alma. Então, sentimos
gosto de Cerpinha, Run Bacardi, a vertigem do beijo, som de merengue.
“O gênio pinta a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas
ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas,
mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos.
O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os cabocos
entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com
pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor
equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram
na Fortaleza de São José de Macapá, no Trapiche Eliezer Levy, no Ver-O-Peso, na
Estação das Docas, em Mosqueiro, em Salinas, no Bailique, em Caiena.
“A presença dele, sua simples lembrança, me causa sempre
alegria, uma espécie de sensação de coisa nova, de descoberta, de novas
possibilidades, de viagem, de aventura. Ele emana uma força poderosa até no
repouso, no silêncio, na simplicidade. Mas seu grande poder se manifesta ao
usar a paleta, o pincel e a espátula, ao conceder à luz o triunfo”.
No palco, Uirapuru,
de Heitor Villa-Lobos. Trata-se de um poema ou balé sinfônico, composto em 1917
e concluído em 1934, com 20 minutos e 33 segundos de duração, que teve sua
gênese em um poema sinfônico de 15 minutos, intitulado Tédio de Alvorada, composto em 1916. Uirapuru foi incluído no programa do último concerto de
Villa-Lobos, em 12 de julho de 1959, no Empire State Music Festival, em Nova
York. O impressionante é que quem conhece a selva amazônica profunda, sente,
nesta composição de Villa-Lobos, o tédio que a grande floresta pode provocar,
pela mesmice do terror que o Inferno Verde impõe a quem não se familiariza com
o ventre da besta. Mas, para quem ama o abismo, ouvir o próprio uirapuru, na
eternidade da grande floresta, é como ouvir Mozart, o som da Terra girando
sobre si mesma, gravitando em torno do Sol a 108 mil quilômetros por hora, o
sistema solar girando em volta do núcleo da Via Láctea a 830 mil quilômetros
por hora, a Via Láctea indo para o Grupo Local a 144 mil quilômetros por hora,
o Grupo Local voando para o aglomerado de Virgem a 900 mil quilômetros por
hora, tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator, a 2,2 milhões de
quilômetros por hora; o Grande Atrator fica para além de Centauro, a 137
milhões de anos-luz da Terra. Walkíria Lima deixou o palco e voltou sob uma avalanche
de aplauso.
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