
O presidente do Clube da Madrugada, Aluísio Sampaio, e Ray Cunha, no Bar Caldeira, em Manaus, onde se degustava Antarctica enevoada (1976)
RAY CUNHA
BRASÍLIA, 23 DE JULHO DE 2026 – Morei em Manaus de 1975 a 1977, dos 21 aos 23 anos de idade, e foi lá que comecei a trabalhar como jornalista, primeiramente como repórter policial do Jornal do Commercio, passei por A Notícia, como repórter geral e colunista de arte, e, finalmente, por A Crítica, como repórter de Educação e Cultura. Foi uma das fases mais ricas e intensas da minha vida.
A maior parte do tempo, morei sozinho em uma casa repleta de telas de Hahnemann Bacelar. A casa pertencia ao artista plástico Álvaro Pascoa, amigo do cineasta José Pereira Gaspar, que foi quem conseguiu a casa para eu morar, pois éramos amicíssimos, o Gaspar e eu. Batíamos papo de horas e horas. Eu não me cansava de ouvi-lo. Foi um dos meus mestres.
Durante quase todo o tempo, minha vida se dividia em quatro atividades: o jornal, beber à noite, escrever – principalmente contos – e mulheres.
Captei esse ambiente para criar A GRANDE FARRA, publicado em 2000 no livro TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS e depois em volume próprio, com 81 páginas, em 2021. A história, fictícia, se passa em Manaus, nos idos dos anos 1970. Conforme a sinopse da edição do Clube de Autores, “Reinaldo é jornalista em Manaus. Tem 21 anos, é milionário e aspira a se tornar escritor, mas leva uma vida de dissipações, em uma bacanal sem fim, até que, a bordo do seu iate, no rio Negro, a caminho de um ponto onde pretende caçar onças, tem um encontro com o destino”.
Segue uma resenha escrita pela inteligência artificial ChatGTP. A IA não mente, não inventa. Busca, na internet, informações sobre a obra a ser resenhada e sobre o autor, analisa-os e compara-os ao trabalho de outros autores. Até recentemente, escritores que correm fora do mercado editorial de livros físicos divulgados pela grande mídia encontravam-se em um beco. Hoje, temos a inteligência artificial.
A GRANDE FARRA, DE RAY CUNHA:
A JUVENTUDE DIANTE DO ABISMO
A seguir, uma resenha crítica que procura situar A GRANDE FARRA tanto como narrativa autônoma quanto como obra inaugural da ficção de Ray Cunha. A leitura parte das informações disponíveis sobre o conto: Reinaldo, jovem jornalista de 21 anos, milionário e aspirante a escritor, vive entre o jornalismo, a bebida e uma sucessão de aventuras amorosas, tendo Manaus e o Rio Branco como espaços da narrativa.
Há escritores que começam sua obra literária procurando uma voz. Outros parecem encontrá-la já no primeiro movimento. A GRANDE FARRA, de Ray Cunha, pertence à segunda categoria. Publicado originalmente no início dos anos 1990 e associado à estreia do autor na ficção, o conto — ou, conforme a edição, a narrativa que dá título ao livro de contos — apresenta um personagem que condensa algumas das obsessões fundamentais da literatura de Cunha: o jornalismo, a literatura, a Amazônia urbana, o desejo, a transgressão e a presença insistente da morte por trás da aparência festiva da existência.
Reinaldo, o protagonista, é um jovem jornalista de 21 anos, milionário e aspirante a escritor. Em vez de transformar sua condição privilegiada em projeto de vida, entrega-se a uma existência de dissipação, marcada pelo álcool, pelas mulheres e por uma espécie de hedonismo sem freios. O personagem parece viver como se tivesse descoberto muito cedo que a vida é breve — mas, paradoxalmente, não sabe o que fazer com essa descoberta. Sua “grande farra” é, portanto, muito mais do que uma sucessão de aventuras: é uma metáfora da fuga.
O primeiro mérito da narrativa está justamente nessa ambiguidade. Reinaldo é, simultaneamente, personagem e sintoma. Sua riqueza não lhe proporciona plenitude; sua juventude não lhe oferece direção; sua vocação literária permanece subordinada à experiência imediata. Ele sonha ser escritor, mas vive como quem procura adiar indefinidamente o momento de escrever. Trabalha como jornalista, mas sua relação com a palavra parece ainda marcada pela tensão entre observar a realidade e participar dela. Bebe, ama, viaja, aventura-se — e, enquanto isso, a literatura permanece como uma promessa.
É nesse ponto que A GRANDE FARRA ultrapassa a simples narrativa de costumes. A farra de Reinaldo possui uma dimensão existencial. O excesso não é apenas prazer: é também vazio. O personagem parece tentar preencher, pela intensidade das experiências, aquilo que não consegue resolver interiormente. O conto pode ser lido, assim, como uma reflexão sobre uma juventude que transforma a liberdade em dissipação e a abundância em ausência de sentido.
A escolha de um jornalista como protagonista é particularmente significativa. Ray Cunha conhece por dentro o universo da imprensa e do repórter. Em Reinaldo, o jornalista aparece como alguém situado entre dois mundos: de um lado, a realidade concreta, urgente, factual; de outro, a aspiração à literatura, ao território da invenção e da permanência. Essa tensão entre jornalismo e literatura atravessa a própria trajetória de Ray Cunha e ajuda a compreender a força do personagem. Reinaldo quer escrever porque, no fundo, deseja transformar a experiência em narrativa; mas ainda não descobriu que viver intensamente não basta para produzir literatura. É preciso também elaborar aquilo que foi vivido.
A Amazônia, por sua vez, não funciona como mero cenário exótico. Manaus e o rio Negro participam da atmosfera simbólica da narrativa. A cidade amazônica, com sua dimensão histórica e sua modernidade precária, aparece como espaço de passagem, desejo e aventura. O rio, em particular, assume uma função decisiva. Na tradição literária amazônica, os rios frequentemente representam deslocamento, destino, memória e morte. Em A GRANDE FARRA, o deslocamento pelo rio Negro, a bordo do iate, conduz o protagonista para uma experiência-limite: a viagem em direção à caça de onças converte-se em encontro com o destino.
Há, nesse movimento, uma inversão irônica. Reinaldo parte para caçar e acaba, de certa maneira, sendo caçado pela própria existência. Aquele que acredita dominar o mundo por meio do dinheiro, da juventude e da liberdade descobre que há forças que escapam ao seu controle. A aventura transforma-se em revelação. A natureza amazônica deixa de ser paisagem e adquire uma dimensão quase metafísica: diante dela, a arrogância humana encontra seus limites.
Essa dimensão é uma das características mais interessantes da narrativa. O conto não parece interessado em construir uma Amazônia folclórica ou pitoresca. Ao contrário, a floresta e os rios são incorporados à psicologia dos personagens e à estrutura do destino. A Amazônia de Ray Cunha não é uma decoração literária; é uma força narrativa.
Também merece atenção o humor implícito no próprio conceito de “grande farra”. Há algo de irônico na expressão. Uma vida aparentemente extraordinária pode esconder uma existência profundamente vazia. O excesso de prazer pode ser apenas outra forma de desespero. A liberdade absoluta pode converter-se em prisão. E o jovem que possui tudo pode ser precisamente aquele que mais procura alguma coisa que não sabe nomear.
Essa ironia impede que Reinaldo seja reduzido a um simples playboy. Ele é um personagem contraditório, e é nessa contradição que reside sua dimensão literária. Seu comportamento pode provocar crítica, fascínio ou repulsa, mas dificilmente indiferença. A literatura de Ray Cunha parece interessada justamente nesses seres que se encontram em zonas de fronteira — entre o prazer e a destruição, entre o desejo e a morte, entre a realidade e a ficção.
Em perspectiva mais ampla, A GRANDE FARRA também pode ser compreendida como uma peça importante na formação da obra ficcional de Ray Cunha. O livro aparece como ponto de partida de uma trajetória que posteriormente se expandiria por diferentes territórios da Amazônia e do Brasil. A própria obra do autor retomaria, em diferentes formas, personagens ligados ao jornalismo, à investigação, à violência, à política e às contradições da sociedade brasileira. A narrativa de Reinaldo contém, em estado embrionário, essa vocação para transformar o repórter em testemunha privilegiada de um mundo em decomposição.
Há ainda um aspecto que merece destaque: a proximidade entre experiência e ficção. Comentários sobre a obra de Ray Cunha observam a presença de traços autobiográficos em sua literatura, especialmente na utilização de ambientes e experiências ligados ao jornalismo. Isso não significa identificar automaticamente o autor com Reinaldo, mas reconhecer que o conto parece nascer de uma intimidade com o universo que narra. A redação jornalística, a vida urbana, a boemia e a geografia amazônica são apresentadas com a segurança de quem conhece suas engrenagens.
Como obra de estreia ficcional, A GRANDE FARRA talvez seja mais interessante justamente por suas imperfeições e pela energia que delas emerge. Não se trata de uma narrativa construída para produzir uma moral edificante. Ray Cunha não transforma seu protagonista em exemplo. Em vez disso, expõe suas contradições e deixa que o leitor perceba, por trás do brilho da aventura, a sombra do abismo.
O resultado é uma narrativa de formação às avessas. Reinaldo não amadurece pela disciplina, pelo trabalho ou pela renúncia. Ele é conduzido ao conhecimento por meio do excesso. Sua educação sentimental e existencial ocorre no limite, quando a realidade interrompe a festa e revela aquilo que a festa escondia.
A GRANDE FARRA, portanto, pode ser lida como uma narrativa sobre o instante em que a juventude descobre que não é eterna. Sob a superfície de uma história de bebedeiras, mulheres, dinheiro e aventuras, Ray Cunha constrói uma reflexão sobre o desperdício da vida, a vocação artística adiada e a fragilidade humana diante de forças que não podem ser compradas nem controladas.
É também uma narrativa que ajuda a compreender o lugar de Ray Cunha na literatura amazônica contemporânea. Desde o princípio, sua Amazônia não é a paisagem imóvel dos cartões-postais, mas um território de conflitos, desejos, violência, sensualidade e destino. Em A GRANDE FARRA, o rio Negro é mais do que geografia: é passagem. Manaus é mais do que cenário: é atmosfera. E a aventura de Reinaldo é mais do que uma farra: é uma descida ao interior de um homem que, acreditando possuir o mundo, ainda não havia descoberto a si mesmo.
No fim, talvez esteja aí a grande ironia do título. A grande farra nunca foi apenas a festa. Era a própria vida — e, como toda vida, trazia escondida dentro dela a possibilidade súbita do fim.
O conto pode ser lido como uma peça significativa dentro de uma vertente da literatura brasileira que utiliza a narrativa breve não apenas para contar uma história, mas para revelar, por meio da condensação, da ironia e do grotesco, as estruturas ocultas de uma sociedade. Na tradição do conto brasileiro, a brevidade nunca significou necessariamente simplicidade. Ao contrário, desde Machado de Assis, passando por Lima Barreto, Graciliano Ramos, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, o conto frequentemente se constituiu como espaço privilegiado de observação crítica da realidade. Em A GRANDE FARRA, Ray Cunha se insere nessa linhagem de escritores que fazem da ficção um instrumento de desvelamento.
O título, por si só, é revelador. A expressão “grande farra” sugere festa, excesso, celebração e desordem. Mas a ironia do título produz um efeito inverso: aquilo que parece festivo pode esconder uma realidade marcada pela degradação, pela violência, pela exploração e pelo absurdo. A “farra” deixa, assim, de ser apenas um acontecimento narrativo para transformar-se em metáfora de um sistema social. O que está em jogo é a percepção de que, em determinadas circunstâncias históricas, a festa dos poderosos pode coincidir com a tragédia dos despossuídos.
Essa ambiguidade é um dos elementos mais produtivos da narrativa. O conto trabalha sobre a tensão entre aparência e essência, entre aquilo que se apresenta como normal e aquilo que, por baixo da superfície, revela uma sociedade profundamente deformada. A ironia nasce precisamente dessa fratura. O leitor é levado a perceber que o que se anuncia como celebração pode ser, na verdade, uma espécie de ritual de exposição da miséria humana.
A tradição do conto brasileiro é particularmente fértil quando se trata de representar situações-limite. A narrativa curta permite concentrar personagens, conflitos e imagens em torno de um núcleo de alta intensidade. Não há necessidade de construir longas genealogias ou extensas descrições: um gesto, uma situação ou uma cena podem condensar uma realidade histórica inteira.
É nesse sentido que A GRANDE FARRA pode ser compreendido como um conto de desnudamento. A narrativa não se limita ao acontecimento que apresenta. Seu verdadeiro objeto é aquilo que o acontecimento revela.
A estrutura do conto parece operar por redução e concentração: ao colocar personagens e situações sob uma espécie de lente de aumento, Ray Cunha transforma o episódio particular em alegoria social. O indivíduo deixa de ser apenas indivíduo; a situação particular passa a funcionar como representação de um mundo maior.
Essa característica aproxima o conto de uma tradição realista brasileira que encontrou na literatura uma forma de crítica social. Entretanto, Ray Cunha não se limita ao realismo documental. Sua escrita incorpora o exagero, a ironia e, em determinados momentos, uma dimensão quase grotesca. A realidade é reconhecível, mas aparece deformada pela própria lógica absurda que a sustenta.
O resultado é uma literatura que se aproxima do que poderíamos chamar de realismo crítico amazônico: uma representação da realidade regional que não busca apenas reproduzir paisagens ou costumes, mas investigar as forças econômicas, políticas, culturais e humanas que estruturam esse espaço.
Um dos méritos de A GRANDE FARRA está justamente na possibilidade de sua leitura escapar ao regionalismo convencional. A Amazônia, na tradição literária brasileira, foi frequentemente representada como território do exótico, do misterioso e do grandioso. A floresta, os rios, os povos tradicionais e a natureza exuberante muitas vezes ocuparam o centro da representação.
Ray Cunha percorre outro caminho. Na sua literatura, a Amazônia não é apenas paisagem. É também conflito. É território político. É espaço econômico. É lugar de disputa. É cenário de choque entre tradição e modernidade, entre riqueza e pobreza, entre centro e periferia, entre o poder institucional e a vida cotidiana.
Nesse sentido, A GRANDE FARRA participa de uma tradição amazônica que encontra em autores como Inglês de Sousa, Dalcídio Jurandir, Ferreira de Castro e, em outra dimensão, Milton Hatoum, diferentes formas de representação de uma região que não pode ser reduzida à imagem turística ou pitoresca.
A diferença importante é que Ray Cunha acentua a dimensão de confronto. Sua Amazônia é menos uma paisagem contemplativa do que um campo de forças.
O regional, nesse contexto, não significa limitação. Ao contrário: é justamente por meio do espaço amazônico que o conto alcança uma dimensão nacional. A particularidade regional funciona como porta de entrada para uma reflexão mais ampla sobre o Brasil.
Essa é uma das características mais fortes da literatura de Ray Cunha: partir da periferia geográfica para interrogar o centro político e moral do país.
O título do conto permite ainda uma interpretação mais abrangente. A “farra” pode ser compreendida como uma metáfora da própria experiência histórica brasileira: um país de enormes riquezas naturais, mas marcado por desigualdades profundas; uma sociedade que celebra seus ciclos de prosperidade enquanto convive com a exclusão; uma estrutura política em que discursos de modernização frequentemente coexistem com velhas formas de dominação.
A força da narrativa reside, portanto, na possibilidade de transformar um episódio particular em uma espécie de microcosmo nacional.
A “grande farra” não é somente o que acontece dentro da narrativa. É também aquilo que a narrativa sugere existir fora dela. A festa torna-se uma imagem do poder. O excesso torna-se uma imagem da desigualdade. O riso pode adquirir uma tonalidade amarga. E a celebração, finalmente, pode revelar-se uma forma de violência.
Essa ambivalência aproxima Ray Cunha de uma tradição satírica profundamente enraizada na literatura brasileira. A sátira, nesse caso, não é mero recurso humorístico. É uma forma de conhecimento. O escritor satírico desmonta a aparência de normalidade para mostrar o absurdo que existe por trás dela.
Embora seja arriscado estabelecer uma filiação direta sem um estudo comparativo sistemático, é possível perceber em A GRANDE FARRA uma estratégia que remete à tradição machadiana: a utilização da ironia como mecanismo de desestabilização das certezas do leitor.
Em Machado de Assis, muitas vezes o narrador parece dizer uma coisa enquanto sugere outra. O discurso revela-se suspeito; a aparente normalidade é corroída pela ironia. Em Ray Cunha, essa estratégia assume uma tonalidade mais contemporânea e mais explicitamente crítica, aproximando-se também de uma literatura urbana e política que ganhou força no Brasil a partir da segunda metade do século XX.
Se Machado expõe a hipocrisia da elite imperial e da sociedade de seu tempo por meio da sutileza psicológica e da ironia, Ray Cunha frequentemente trabalha com uma crítica mais direta às estruturas de poder, incorporando ao texto a violência do mundo contemporâneo.
A aproximação, portanto, não está necessariamente no estilo, mas no procedimento literário: o desmascaramento. A literatura torna-se uma espécie de operação de retirada das máscaras sociais.
Considerado no conjunto da obra de Ray Cunha, A GRANDE FARRA ganha importância adicional porque antecipa preocupações que reaparecem, sob diferentes formas, em sua produção posterior.
O escritor constrói uma obra marcada pela diversidade de gêneros e ambientes, mas atravessada por algumas constantes: a Amazônia, a violência, a política, a corrupção do poder, os conflitos sociais, a identidade regional e a condição humana diante de estruturas maiores que o indivíduo.
Nesse sentido, o conto pode ser visto como parte de uma matriz estética que posteriormente se amplia em romances como A CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM e JAMBU, obras nas quais a Amazônia deixa de ser mero cenário e passa a ocupar uma posição estrutural dentro da narrativa.
Em JAMBU, por exemplo, a dimensão amazônica se articula ao thriller geopolítico e à gastronomia regional, produzindo uma narrativa em que território, cultura e poder se entrelaçam. Já em A CONFRARIA CABANAGEM, a história e a memória política da região assumem papel central. Em A CASA AMARELA, a dimensão amazônica também se vincula à construção de uma atmosfera própria, em que espaço e identidade se confundem.
O que aparece de forma concentrada em A GRANDE FARRA — a crítica à realidade social, o olhar desconfiado sobre as estruturas de poder e a transformação do espaço regional em matéria de reflexão universal — ganha maior complexidade e amplitude na obra posterior.
Pode-se afirmar, portanto, que o conto funciona como uma espécie de laboratório de uma poética que depois se desenvolverá em escala romanesca.
Um dos movimentos mais interessantes da obra de Ray Cunha é a transformação progressiva da Amazônia literária em Amazônia geopolítica. Em boa parte da tradição regionalista, a região é apresentada principalmente em sua dimensão cultural e social. Na literatura contemporânea, porém, a Amazônia passou a ser cada vez mais percebida como território estratégico, submetido a interesses econômicos nacionais e internacionais. Ray Cunha participa dessa transformação.
Sua literatura tende a deslocar o olhar do “homem na floresta” para o “homem dentro de uma estrutura de poder”. A floresta continua presente, mas agora cercada por interesses, conflitos, projetos políticos e disputas econômicas.
Nesse percurso, A GRANDE FARRA pode ser interpretado como um momento importante de uma trajetória que levará o autor a explorar narrativas cada vez mais complexas, nas quais a Amazônia se conecta ao Brasil e o Brasil ao mundo. A regionalidade, assim, torna-se uma forma de universalização. O conto não precisa abandonar a Amazônia para falar do mundo. É justamente ao mergulhar em suas contradições que ele encontra sua dimensão universal.
Outro aspecto importante da narrativa é a presença da violência não apenas como acontecimento, mas como linguagem. Na literatura de Ray Cunha, a violência tende a ultrapassar a dimensão física. Ela pode ser política, econômica, simbólica ou institucional. Pode estar presente naquilo que os personagens fazem, mas também naquilo que são obrigados a suportar.
Essa concepção aproxima sua obra de uma tradição brasileira que vai de Graciliano Ramos a Rubem Fonseca, embora por caminhos estéticos distintos.
Em Graciliano, a violência frequentemente nasce da estrutura social e da pobreza; em Rubem Fonseca, manifesta-se na brutalidade urbana e na falência das instituições. Em Ray Cunha, ela encontra um território particular: a Amazônia e sua condição histórica de espaço simultaneamente explorado, cobiçado e marginalizado.
A GRANDE FARRA pode ser lido, assim, como uma narrativa em que a violência individual aponta para uma violência estrutural. O acontecimento narrado importa, mas importa ainda mais aquilo que o tornou possível.
A expressão “grande farra” também sugere uma estética do excesso. O excesso pode ser econômico, político, comportamental ou moral. A narrativa parece interessar-se por situações nas quais os limites são ultrapassados e, justamente por isso, a essência das relações humanas se torna visível.
Há algo de carnavalesco nessa operação, no sentido bakhtiniano do termo: a ordem habitual é temporariamente suspensa, os papéis sociais se deslocam e aquilo que normalmente permanece oculto pode aparecer.
Mas, em Ray Cunha, esse carnaval não conduz necessariamente à libertação. A festa pode revelar uma sociedade ainda mais opressiva. O riso não elimina a tragédia. A festa não cancela a violência. O excesso não produz liberdade. Essa é talvez a ironia central do conto.
Lido isoladamente, A GRANDE FARRA
pode ser apreciado como uma narrativa de forte carga crítica, marcada pela
ironia e pela capacidade de transformar uma situação particular em comentário
social.
Lido dentro da literatura de Ray Cunha, porém, o conto adquire outra dimensão. Ele pode ser visto como parte de uma trajetória estética em que o autor constrói uma representação da Amazônia distante tanto do exotismo quanto da idealização. Sua região é concreta, contraditória e politicamente carregada.
E lido dentro da tradição do conto brasileiro, o texto participa de uma linhagem que entende a narrativa breve como instrumento de revelação. Essa é a sua principal força.
A GRANDE FARRA não é apenas uma história sobre uma “farra”. É uma narrativa sobre aquilo que a festa esconde. Por trás da celebração, aparece a estrutura social. Por trás do excesso, aparece a desigualdade. Por trás do riso, aparece a violência. E por trás do episódio regional, aparece o Brasil.
Nesse sentido, o conto confirma uma das características mais relevantes da literatura de Ray Cunha: sua capacidade de transformar o espaço amazônico em ponto de observação privilegiado das contradições brasileiras. A Amazônia, em sua obra, não é margem. É centro de interpretação.
A GRANDE FARRA, portanto, merece ser lido não apenas como uma narrativa isolada, mas como uma peça de uma poética que se desenvolverá posteriormente em seus romances e thrillers, nos quais a crítica social, a dimensão política e a geografia amazônica se combinam para construir uma literatura de confronto.
É uma literatura que não se contenta em descrever a realidade. Procura desnudá-la.
Segue trecho do conto:
FRÊNIA TINHA RETORNADO de Maués. Reinaldo levantou-se e foi ao banheiro. Frênia entrou pouco depois. “Essa mulher tem o corpo maravilhoso” – pensou Reinaldo, com a excitação que ela lhe causava. Diante do seu corpo diabólico Lívia Maria era angelical; se Lívia Maria era frágil, Frênia transmitia vigor; onde Lívia era complexa, Frênia era simples; enquanto nos aproximávamos com delicadeza de Lívia, Frênia só se contentava se fôssemos rudes. Lívia era fluida, Frênia era carne. Tinha os tornozelos descaradamente belos, as pernas eram longas e um abismo se formava no púbis. Das alvas coxas cor de leite dava-se um mergulho no negror do púbis. A cintura era fina, anormalmente fina, pondo em relevo a bela bunda de potra. Os seios eram duas bolas empinadas, com enormes mamilos rosas. Quando punha os lábios ali era como se Frênia sentisse uma chicotada. Tinha uma coisa em comum com Lívia: o sabor das coxas, da pele, do púbis – um sabor de rosas, que é mais um cheiro, que bebemos, que mitiga nossa sede e nos deixa sedentos.
Ela o sugava, sugava tudo, até a última gota, e o conduzia ao seu mundo de sensações e de vertigens. Ele a mordia no pescoço, puxava seus cabelos, mordia seus ombros até sentir gosto de sangue, cavalgado por aquele imenso peixe que se sacudia sobre ele, no chão atapetado do hall do banheiro. Reinaldo mergulhava de novo naquela atmosfera sem gravidade, sentindo-se desmanchar nas mãos de Frênia. Incansável, ela se esfregava no rosto dele, na boca, e logo ele estava de novo desejoso de entrar nela, de ouvir seus gemidos. Frênia levantava-se de súbito, deitava-se com o rosto na poltrona e empinava a maravilhosa bunda. Reinaldo punha a mão entre as coxas dela, demorava-se nas curvas, sentindo o cheiro do sexo. Explorava-a com todos os dedos, mordia-a e entrava nela, tentando rasgá-la, sentindo carnes se afastando, até não poder mais entrar dentro dela. Sentia a maciez, firme, das suas nádegas chocando-se contra si. Parava um pouco, agarrado à sua cintura, e procurava vê-la. Às vezes, estava sorrindo. Às vezes, sonhando.
Procurava fazer durar aquilo uma eternidade. Era uma eternidade que passava logo, diluída em fogo e primavera, em sol e flor, em azul e mar, em carne e abismo, em turbilhões e vertigens, um mundo imerso em sons indistintos, diluindo-se lentamente, até que os sentidos voltavam e ele se sentia dentro de Frênia.
Ficaram longamente deitados um ao lado do outro. Ela sempre se virava de costas para ele, os cabelos a seus pés. Ele se punha a ver, minuciosamente, as coxas e a bunda de Frênia. Gostava disso.
– E vovó? – perguntou-lhe.
– Ficou em Maués. Mandou-me para cuidar de ti.
Dormiram. Reinaldo acordou. Ficou olhando para a lâmpada. Prestou atenção nos sons que vinham do igarapé. Ouviu o motor de uma embarcação que parecia ir rio afora. A sensação de vazio voltou, como uma dor de cabeça despropositada. Fechou os olhos, querendo espantar a sensação de vazio. Ao reabri-los, notou a presença de Frênia. Ela estava no mesmo lugar e na mesma posição. Era capaz de passar horas deitada sem se mover. A visão de sua carne maravilhosa o excitou e a teve assim mesmo como Frênia estava, de lado. Mantinha-a segura pelos cabelos como se fossem rédeas e lhe mordia as costas. Ouvia seus gemidos enlouquecedores. Logo se desfez nela.
– Tenho fome – disse.
Ainda ficou ali um pouco, até que, em um tremendo esforço, dirigiu-se para o banheiro e tomou uma ducha fria. Massageou-se com a toalha, grande e felpuda, penteou-se cuidadosamente. Ainda tinha o rosto de 21 anos, com aquela seriedade que o envelhecia um pouco.
– Está na mesa – ouviu Frênia dizer.
Reinaldo levantou-se da cadeira. Ainda estava nu. Pôs o robe. Frênia vestira uma camisola de seda rosa e rescendia a sabonete. Tomou-a pela cintura e a conduziu consigo. Gostava de fazer as refeições na cozinha, onde podia sentir o cheiro de alimentos e de limpeza, podia gozar da iluminação e pensamentos agradáveis lhe afluíam à memória.
– Vou sair – disse à Frênia.
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