segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Meu amigo carioca

Elenco de Morte e Vida Severina pela Escola de Teatro de
Comédia da Guanabara, encenada no antigo Teatro de Arena,
no Largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro, 1972. Na foto,
Luiz Loyola é o segundo, à esquerda, agachado, e Ray Cunha
é o de cabelo black-power, na extremidade, à direita

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 17 DE AGOSTO DE 2026 – Meu amigo carioca partiu para o azul cobalto de Copacabana, naquele momento da tarde em que o céu deságua no mar. Ele tinha a idade de quando somos imortais, 21 anos, e eu, 18, quando o conheci. Luiz Antonio Loiola de Matos, Luiz Loyola. Quero dizer à sua amada, Angela Loyola, à sua princesa, Clara, e ao seu herdeiro, Gabriel, que a vida, aqui na Terra, é mesmo rápida; o bom, mesmo, começa na quinta dimensão. A coisa é tão rápida que conheci Loyola em 1972, e parece que foi ontem. 

Na época, o compositor amapaense Luiz Tadeu Tavares Magalhães trabalhava na White Martins, filial de Jacaré, bairro da Zona Norte do Rio, e conseguiu para mim uma vaga de contínuo; logo depois, fui promovido a auxiliar de venda. Às sextas-feiras, principalmente na primeira sexta do mês, Tadeu e eu saíamos para beber. Às vezes, íamos para a casa do nosso colega de White Martins, Frank Loiola Matos, em Padre Miguel, quando conheci o irmão dele, Luiz Loyola, Lula, e fizemos o Curso de Interpretação Teatral no antigo Teatro de Comédia do Estado da Guanabara (Teco), na turma do professor e ator Jorge Paulo. 

A prova final do curso foi a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque de Holanda, no extinto Teatro de Arena, no Largo da Carioca. Loyola fez um dos coveiros; o outro, era eu. 

O quarto do Loyola era chamado de BOE (Boite Onda Estudantil), onde, nas palavras do próprio Loyola, “aconteciam reuniões com muita música, teatro, poesia, happenings, num clima underground e ambiente psicodélico, cheio de posters de vanguarda, caricaturas, painel com capas de LP, objetos antigos, como um armário centenário com um enorme espelho de cristal na frente da porta, que encantava os narcisistas, uma luminária em formato de chapéu mexicano vermelho, iluminada por uma tênue luz azul opaca, lembrando cabarés da Avenida Prado Júnior, no Leme; no chão, havia um espelho retrovisor redondo, de aproximadamente um metro de diâmetro, do serviço de trânsito do Rio, apelidado de “poço” pelo companheiro de trabalho Paulo Cesar Americano do Brasil, da Remington Rand, onde trabalhei com Luiz Tadeu no início da década de 70. 

“Num desses eventos, em uma noite festiva, tive o prazer de receber o amigo Ray Cunha, sutilmente trajando calça jeans do Lixo (boutique cult de Copa), camisa mangas compridas com gola rolê cor roxa e sapatos bicolores vermelhos e amarelos. A figura tinha cabelos ruivos black-power no melhor estilo saltimbanco do ator do filme musical Gospell... em sua companhia chegaram Luiz Tadeu e Iara Picanço, depois de uma viagem de trem da Central do Brasil, direto do subúrbio do Lins de Vasconcelos” – recorda Loyola. 

Os sapatos bicolores foram presente do artista plástico amapaense Abenor Pena Amanajas, que então morava no Rio, e a Iara Picanço foi a primeira esposa do Luiz Tadeu, mãe da minha querida amiga Luciana, afilhada do Luiz Loyola. 

Na mesma época do curso de teatro, começamos a leitura e laboratório da peça Miolo de Pão, do Loyola, “a realidade conflitante, festiva e utópica de uma família do subúrbio carioca” – segundo o próprio Loyola. Nós nos reuníamos na casa do Jamil Viana, na Pavuna; na casa da belíssima Beth Bello, na Ilha do Governador; e na Vila Valqueire. 

Certo dia, ensaiamos no casarão em Vila Valqueire. Insistiram para que eu fumasse maconha e resolvi experimentar. Foi a primeira e única vez. Comecei a me sentir do jeito que imaginamos um astronauta na lua e minha pressão baixou. Era uma tarde ensolarada e resolvi sair. Ninguém se importou com isso e saí sozinho. Lembro-me de que eu andava como um astronauta, com sapatas pesadas para não flutuar. Resolvi ir para a casa do Loyola, em padre Miguel. Peguei um trem errado, retornei à Central do Brasil e consegui chegar em Padre Miguel lá pelas 22 horas. 

Jamais esquecerei aquela noite. Eu estava faminto. O Loyola me convidou para irmos à cozinha e saboreamos bolo, pães e cuscuz com café, preparados por dona Maria Amélia, mãe do meu amigo carioca. Lembro-me que comecei a degustar uma banana declamando versos de Xarda Misturada, “dando um toque tropicalista romântico àquela noite de inverno tímido” – registrou Loyola. XARDA MISTURADA é um livro de poemas de Joy Edson, José Montoril e eu, publicado em 1971, em Macapá/AP, minha cidade natal. 

Eu morava na Rua República do Peru 210/204, entre as ruas Tonelero e Barata Ribeiro, em Copacabana, mesmo endereço do Itabaraci Nunes Batista, irmão do músico amapaense Aimorezinho, que aparecia lá de vez em quando. Na White Martins, comecei a fazer um house organ da filial, o que me granjeou muito prestígio. Além disso, eu pagava mensalmente uma empresa que fornecia entradas a pelo menos quatro peças teatrais por mês. O gerente da filial, dr. Arlindo, também era cliente da mesma empresa e andamos nos encontrando nos teatros. Ele morava em Ipanema e passou a me dar carona para Copacabana quando saíamos juntos. O jornalzinho e o interesse comum por teatro entre o gerente da filial e eu, além da companhia do Luiz Tadeu, tornavam o ambiente pesado de multinacional um convívio bastante agradável. 

Um dia, Loyola foi me visitar. Ele mesmo escreveu: “Numa única visita à casa de Ray Cunha, na Rua República do Peru, em Copacabana, na década de 1970, o poeta me recebeu em seu quarto (vaga), onde havia uma cama beliche e o seu estado de saúde era gripal e febril; driblamos aquele quadro e resolvemos sair pra respirarmos uma brisa do mar caminhando pelo calçadão, depois paramos numa lanchonete e tomamos um delicioso café e suco de laranja com sanduíche, e, serpenteando pelas ruas sombrias do bairro, o poeta fez uma citação irreverente dizendo que Copacabana era uma enorme cama...” – Luiz Loyola mergulha mais naqueles anos dourados, referindo-se ao poema Essa Copacabana Triste Mulher, publicado no livro DE TÃO AZUL SANGRA. 

Demorei apenas dois anos no Rio e voltei para a estrada. Foi minha fase on the road. Durou até 1982. Foi mais ou menos nessa época que recebi, em Belém, onde estava morando, uma visita do Loyola e a Angela. Estavam visitando a Amazônia e tinham ido à ilha de Marajó. Recebi-os em casa. Foi estranho e eu nunca tive a oportunidade de explicar a estranheza ao Loyola, pois sempre quis fazer isso pessoalmente. Eu estava me separando da minha primeira esposa e acho que o Loyola e a Angela perceberam que algo ia errado. E ia mesmo. Acho que eu andava dopado. 

Logo depois disso voltei ao Rio. O Loyola comemorou o aniversário dele em Pedra de Guaratiba e o Luiz Tadeu e eu pintamos, lá. Foi uma imensa bebedeira, com a famosa batida do Primo, de Olinda, mais ao norte de Padre Miguel, vinho, cerveja, happenings e a bela voz do Luiz Tadeu, cantor maravilhoso. Dessa vez, minha estadia no Rio durou pouco tempo. Retornei para Belém e concluí o curso de jornalismo. 

Nos anos 1990, fui novamente ao Rio, quando o pintor Olivar Cunha expôs em um espaço em Botafogo, defronte ao Shopping Rio Sul. Ao coquetel de abertura estavam presentes Luiz Tadeu e Luciana, e Luiz Loyola. 

Em 1992, fui ao Rio para lançar o livro de contos A GRANDE FARRA. Foi uma estadia etílica. Encontrei-me, é claro, com meu amigo carioca. 

Em 2000, participei da Bienal do Livro, com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS. Naquele ano, em uma manhã de domingo, eu acabara de sair da praia de Ipanema, com Luciana, quando houve o primeiro arrastão televisionado – cenas aterrorizantes. Eu vivia mergulhado em um sonho etílico. Encontrei-me com Loyola, mas não me lembro de nada. 

No dia 2 de fevereiro de 2024, um sábado, autografei o romance-reportagem JAMBU no restaurante Belém Belém Amazônia, templo da cozinha paraense no Rio de Janeiro, na Avenida Rainha Elisabeth da Bélgica 122, Loja A. Essa via liga as avenidas Atlântica, em Copacabana, na altura do Posto 6, à Vieira Souto, em Ipanema. Loyola não foi, porque estava em São Paulo, nem o Luiz Tadeu, que estava em Macapá. Mas Luciana foi. 

Desde que comecei a frequentar o Facebook revia meu amigo carioca, de vez em quando, e até trocávamos um alô. Ele me chamava de poeta. Loyola era um doce, um querido amigo. Meu amigo carioca. Imagino-o saltando da Pedra da Gávea, ou do Cristo Redentor, ou do Pão de Açúcar, de asa delta, rumo ao azul.

Os livros citados podem ser encontrados no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Comemoração no Senado Federal dos 69 anos da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo se torna um grito pelo fim da ditadura da toga

Cláudio Magnavita, do Conselho Nacional do Turismo (CNT),
ex-presidente da Abrajet; Miriam Petrone, presidente da
Abrajet São Paulo; senadora Damares Alves, presidente da
sessão; Luiz Pires, presidente da Abrajet Nacional; Antônio
Claret Guerra, do Conselho Nacional do Turismo e presidente
da Abrajet Minas Gerais; e Gustavo Lopes, secretário municipal
de Turismo de São Paulo (Ton Molina/Agência Senado)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 14 DE AGOSTO DE 2026 – Em discurso na cerimônia pelos 69 anos da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet), no plenário do Senado Federal, na tarde de hoje, o ex-presidente da Abrajet, membro do Conselho Nacional do Turismo e publisher do Correio da Manhã, Cláudio Magnavita, alertou para a ditadura instalada no país e que vem aterrorizando a imprensa, ao lembrar o caso do jornalista maranhense Luís Pablo – denunciou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, que usou carro institucional em passeio com sua família na praia – que teve sua fonte jornalística submetida à operação da Polícia Federal, embora a Constituição garanta o sigilo da fonte. 

Após Luís Pablo publicar reportagem sobre o uso de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão por Flávio Dino e familiares, em março, a Polícia Federal apreendeu celulares, notebook e outros dispositivos do jornalista. Terça-feira 11, o ministro Alexandre de Moraes, colega de Dino, autorizou uma operação de busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do governo do Maranhão, apontado como fonte de Luís Pablo. 

A Agência Senado só publicou vídeo com o início da fala de Cláudio Magnavita e não a parte em que ele denuncia o estado de excessão que o país vive. 

A celebração no Senado foi uma iniciativa do senador Eduardo Gomes (PL/TO), vice-presidente da casa. Gomes não pode comparecer à sessão por motivo de força maior e foi substituído na presidência dos trabalhos pela senadora Damares Alves (Republicanos/DF). 

Fundada em 29 de janeiro de 1957, no Rio de Janeiro, a Abrajet tem sucursais em 20 Estados e no Distrito Federal, com filiação de mais de 200 profissionais que trabalham em 140 veículos de comunicação, incluindo jornais, revistas, rádios, emissoras de TV e portais digitais. 

O turismo, hoje, no Brasil, passa por momentos difíceis. Atualmente, o Brasil está em quadragésimo sexto lugar no ranking mundial de volume de visitantes. Embora um paraíso tropical, O Brasil é um dos países mais violentos do globo. Gangues de narcotraficantes aterrorizam cidades e dominam bairros, cidades e até Estados, como é o caso da Bahia e do Ceará.

Os Estados Unidos criaram o Escudo das Américas e tratam narcotraficantes como terroristas, o que os legitimam a combater quadrilhas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) até dentro do território dos países da América Latina.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Jornalista José Maria Trindade comenta que não precisa Força Delta para pegar Lula: basta Uber

José Maria TrindadeO CLUBE DOS ONIPOTENTES, edição de 2022

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 11 DE AGOSTO DE 2026 – O jornalista José Maria Trindade, comentarista político e diretor da sucursal do grupo Jovem Pan em Brasília, revelou a situação do presidente Lula da Silva e a realidade das Forças Armadas do Brasil em uma ironia: comentou que se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quiser capturar Lula da Silva não precisará da Força Delta, mas apenas de um Uber. 

Recentemente, a Força Delta capturou o ditador da Venezuela, a hiena Nicolás Maduro, chefão do Foro de São Paulo e um dos maiores narcotraficantes e ladrões do mundo. Lula está com medo do mesmo destino porque também comanda o Foro de São Paulo e se opõe ferozmente que os Estados Unidos considerem as máfias de narcotraficantes Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) terroristas. 

Lula já se precaveu. Consultou as Forças Armadas para se certificar de que nem a Força Delta conseguirá capturá-lo e levá-lo para os Estados Unidos. A resposta foi mais ou menos um conselho: é melhor continuarem capinando e pintando meios-fios, pois estão à mingua. 

Em um confronto Brasil versus Estados Unidos bastaria que os americanos desligassem o GPS. Sem GPS, até os pets perderiam o rumo. 

Journalist Says There Is No Need for Delta Force to Get Lula: Uber Will Do 

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, AUGUST 11, 2026 – Journalist José Maria Trindade, political commentator and director of the Brasília bureau of the Jovem Pan media group, highlighted the situation of President Luiz Inácio Lula da Silva and the reality of Brazil’s Armed Forces with an ironic remark: he said that if U.S. President Donald Trump wanted to capture Lula da Silva, he would not need Delta Force—just an Uber. 

Recently, Delta Force captured Venezuela’s dictator, the hyena Nicolás Maduro, head of the São Paulo Forum and one of the world’s biggest drug traffickers and thieves. Lula is afraid of suffering the same fate because he also commands the São Paulo Forum and fiercely opposes the United States designating the drug-trafficking gangs Primeiro Comando da Capital (PCC) and Comando Vermelho (CV) as terrorist organizations. 

Lula has already taken precautions. He consulted Brazil’s Armed Forces to make sure that not even Delta Force would be able to capture him and take him to the United States. The answer was more or less a piece of advice: they would be better off continuing to cut grass and paint curbs, because they are barely hanging on. 

In a confrontation between Brazil and the United States, all the Americans would have to do is switch off the GPS. Without GPS, even pets would lose their way.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Por que Donald Trump, Marco Rubio e Daniel Perez devem ler a trilogia A Ditadura da Toga


RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 10 DE AGOSTO DE 2026 – Em dezembro de 1823, o presidente americano James Monroe criou a Doutrina Monroe, princípio de política externa dos Estados Unidos resumido pelo lema: “A América para os americanos”, no sentido de que acaba ali a colonização europeia no continente americano. Em 1917, a máfia comunista chegou ao poder na Rússia por meio de uma revolução. Era o começo da invasão de vários países e da doutrina de dominação do planeta. Em 1990, foi criado o Foro de São Paulo, que reúne ditadores, guerrilheiros de Esquerda, terroristas e narcotraficantes visando à dominação da América Latina, especialmente o Brasil, para, então, varrerem os Estados Unidos do mapa. 

Nos Estados Unidos, os comunistas se aninharam no Partido Democrata e usavam dinheiro da Usaid (United States Agency for International Development – Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) para instalar ditaduras na América Latina. No Brasil, tiraram o presidente Lula da Silva da cadeia e o colocaram na Presidência, com ajuda do ex-presidente americano Joe Biden, acusaram de golpe de Estado o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, de Direita, e o condenaram a 27 anos de prisão, não sem antes tentarem matá-lo de outra maneira, com uma facão enferrujado que quase transfixou o Mito, como Bolsonaro é conhecido. 

Só que, em 20 de janeiro de 2025, o republicano Donald Trump foi empossado presidente dos Estados Unidos. Aí, tudo mudou. Trump fechou a Usaid e prendeu, em 3 de janeiro deste ano, um dos dois chefões do Foro de São Paulo, o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro. O outro chefão é Lula. 

Em 7 de março de 2026, Trump cria a coalizão militar Escudo das Américas, com 12 governos latino-americanos alinhados à Direita, para combater os cartéis de drogas e o narcoterrorismo na região, além de conter a influência de potências como China, Rússia e Irã. A China já tem verdadeiros feudos dentro do Brasil, principalmente no Nordeste, além de Lula ter cedido ao Partido Comunista Chinês uma mina de urânio. 

Para combater o Foro de São Paulo, que está por trás do narcoterrorismo na Ibero-América, Lula escalou Marco Rubio, secretário de Estados norte-americano. Rubio entende a fundo a geopolítica latino-americana e é um estrategista. E como homem no Brasil, Trump escalou novo embaixador, Daniel Perez, outro conhecedor da geopolítica da América Latina. Só que Lula não deu as credenciais para o novo embaixador e vem trabalhando para uma ruptura com os Estados Unidos. 

Na cabeça do batráquio, Trump não mandaria capturá-lo como fez com Maduro. No fundo da sua demência ele acha que o Brasil tem poder de dissuasão contra a Pax Americana. 

Acredito que Marco Rubio e Daniel Perez deveriam ler a trilogia A Ditadura da Toga – O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO TOURO e O TERCEIRO OLHO –, deste jornalista, já publicada em inglês na amazon.com. 

A Ditadura da Toga abarca um período da História desde a derrocada do czarismo até o Escudo das Américas. São três romances ensaísticos, ou jornalísticos, com trama ficcional e fundo real, com foco na história política recente do Brasil. Pode ser que a trilogia esclareça alguns pontos ainda obscuros a eles. Trump está também convidado à leitura da trilogia. 

Why Donald Trump, Marco Rubio, and Daniel Perez Should Read The Robe Dictatorship Trilogy 

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, AUGUST 10, 2026 — In December 1823, President James Monroe articulated what became known as the Monroe Doctrine, a cornerstone of U.S. foreign policy summarized by the phrase “America for Americans.” Its underlying message was clear: European colonial expansion in the Americas had reached its limits. 

In 1917, the communist mafia seized power in Russia through revolution. It marked the beginning of a broader project of expansion, the subjugation of nations, and ultimately the ambition to dominate the world. 

In 1990, the São Paulo Forum was established. It brought together dictators, left-wing guerrillas, terrorists, and drug traffickers pursuing what I regard as a common objective: the political domination of Latin America, particularly Brazil, followed by the weakening and eventual removal of American influence from the Western Hemisphere. 

In the United States, communists found allies within the Democratic Party and, according to this view, used USAID — the United States Agency for International Development — as an instrument for political intervention and the establishment of authoritarian regimes in Latin America. 

In Brazil, Lula da Silva was released from prison and returned to the presidency with the assistance of the administration of former President Joe Biden. Former President Jair Messias Bolsonaro, a right-wing leader, was accused of attempting a coup and sentenced to 27 years in prison. Before that, he survived an attack involving a rusty machete that nearly pierced his body — one of the reasons his supporters call him “the Myth.” 

But on January 20, 2025, everything changed. Republican Donald Trump was sworn in as President of the United States. 

Trump shut down USAID and, on January 3 of this year, captured one of the two alleged leaders of the São Paulo Forum: Venezuelan dictator Nicolás Maduro. The other, in my view, is Lula. 

On March 7, 2026, Trump established the Escudo das Américas military coalition, bringing together 12 Latin American governments aligned with the political Right. Its stated objectives include fighting drug cartels and narco-terrorism while countering the influence of powers such as China, Russia, and Iran. 

China has already established what amount to strategic fiefdoms inside Brazil, particularly in the Northeast. Lula has also granted the Chinese Communist Party access to a uranium mine. 

It is against this geopolitical backdrop that Lula has placed Marco Rubio, the U.S. Secretary of State, at the center of the American response to the São Paulo Forum and narco-terrorism in Ibero-America. 

Rubio understands Latin American geopolitics deeply. He is a strategist. And as President Trump’s man in Brazil, Washington appointed Daniel Perez as its new ambassador, another diplomat with a strong understanding of the region. 

Yet Lula has refused to grant the new ambassador his diplomatic credentials and, in my assessment, has been moving Brazil toward a rupture with the United States. 

In the mind of this political toad, Trump would never send someone to capture him as he did Maduro. Deep in his delusion, he appears to believe that Brazil possesses sufficient deterrent power to stand against the Pax Americana. 

This is precisely why I believe Marco Rubio and Daniel Perez should read my trilogy, The Robe Dictatorship — The Club of the Omnipotents, The Eye of the Bull, and The Third Eye — already available in English through Amazon.com. 

The Robe Dictatorship covers a historical arc stretching from the collapse of czarism to the emergence of the Escudo das Américas. The three books are hybrid works: part political novel, part essay, part journalistic investigation. Their fictional plots unfold against a real historical backdrop, with particular emphasis on Brazil’s recent political history. 

The trilogy offers a fictional lens through which to examine the forces shaping contemporary Brazil — and, by extension, the geopolitical struggle for the future of the Western Hemisphere. 

Perhaps these books can illuminate some of the questions that remain unanswered for Rubio and Perez. 

President Trump is invited to read The Robe Dictatorship Trilogy as well.

domingo, 9 de agosto de 2026

Papai faz 100 anos

Sinto o abraço de Marina e João Raimundo Cunha ao fazer a
Meditação Shinsokan. Eles, agora, habitam a dimensão Azul

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 9 DE AGOSTO DE 2026 – Alguns dos meus ídolos – Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry – manifestam duas características em comum: são escritores classe A e foram homens de ação. Um homem de ação é aquele que pensa e age simultaneamente, e não vive quieto, pois está sempre metido em alguma aventura. A própria vida é sua grande aventura, até que, no caminho, é derrotado pela barreira da dimensão física, mas não é vencido, e povoa o universo azul. Meu pai, o maior dos meus ídolos, não era escritor, mas era homem de ação, e me contou histórias eternas. 

Aos 5 anos de idade, quando descobri, no quarto do meu irmão Paulo Cunha, que seria escritor, em meio de uma galáxia de gibis, revistas ilustradas e livros, meu pai tinha, então, 44 anos. Media 1,68, era seco e forte, o rosto oval, olhos castanhos e oblíquos, e usava uma loção à base de pinho após raspar, com navalha, o rosto, deixando apenas o bigode. Foi o homem mais corajoso que já encontrei; nada o intimidava. Internava-se na selva dias seguidos, sozinho, e era capaz de meter uma bala no buraco de outra, a mais de 100 metros de distância. Ele não era escritor, mas escreveu poemas, que se perderam no tempo. 

Lá pelos 14 anos, quando comecei minha carreira de escritor, trabalhando em um poema, que também se perdeu, dedicado à poeta Alcinéa Maria Cavalcante, uma ninfeta completamente linda, peguei os originais do papai e li alguns dos poemas na Rádio Educadora, não me lembro mais se em um programa do João Lázaro, ou do Luiz Tadeu Magalhães. Papai soube e me passou uma reprimenda. Mas senti, ali, naquele momento, que, de alguma forma, ele não se importou muito que eu tivesse lido publicamente seus poemas, e isso me deixou feliz, pois agradar o ídolo é para o fã o sonho mais ousado. 

Papai não era escritor, mas foi um extraordinário contador de histórias. Leu Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, e contava a história para nós, meus irmãos e eu, como se Tarzan fosse real. Porém, o que mais me fascinava eram as aventuras do próprio papai, especialmente quando se internou na selva profunda e foi atraído por uma sucuri. Tonto, quase desmaiando, foi salvo pelo seu anjo da guarda; conseguiu avistar a cabeça da sucuri, apoiou o rifle em uma forquilha e estourou a cabeça da serpente, uma cabeçorra do tamanho de uma lata de leite Ninho. 

Papai chefiava todo o trabalho pesado dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul no Aeroporto de Macapá. Começava sinalizando à chegada dos Douglas DC-3, abastecia os aviões e os despachava. A primeira vez que o vi fazendo isso fiquei deslumbrado, e quando fui autorizado a entrar no avião foi como se houvesse entrado em uma nave espacial. Meu pai conversava com os pilotos da nave e entrava no avião como se estivesse em casa, e serviram-me sanduíches e biscoitos inimagináveis. 

Apenas uma vez o vi fraquejar. Foi quando a tragédia invadiu a Casa Amarela, a casa da minha infância, na esquina da Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliézer Levy, onde, hoje, uma seringueira plantada por meu pai no ano de nascimento do meu irmão, o gênio do pincel Olivar Cunha, intercepta o muro do Colégio Amapaense. Vi-o fraquejar quando anunciaram a morte do meu irmão Francisco Pereira Cunha. Era 22 de novembro de 1965. 

Francisco tinha 18 anos e era belo como Zeus, e imortal como todo jovem. Meu pai foi atingindo por um raio. Caiu numa cadeira, mole, sem tônus, os olhos, sempre tão interessados pela vida, gritavam de dor. E logo depois veio o segundo choque: o corpo chegando. Não compreendi bem aquilo, apesar de ter 11 anos. Para mim, a matéria era para sempre, e só fui entender o que se passara quando, no Cemitério São José de Macapá, vi todos se sacudindo em choro, como chuva que não passa nunca. 

Meu pai tinha 57 anos e eu, 17, em 1972, quando peguei um barco para Belém e de lá, de carona pela Belém-Brasília, em construção, fui até Brasília, de onde parti para o Rio de Janeiro, onde vivi durante dois anos em Copacabana. Retornei à Macapá e, ainda inquieto, tomei a estrada novamente, até Buenos Aires, onde permaneci durante um mês, trabalhando como carregador de fardos de trapo, utilizado em pequenas oficinas, para um judeu-argentino, Roberto Nasielsky, que fora comando israelense e que me viu na rua, no dia em que cheguei a Buenos Aires, identificou-me imediatamente como brasileiro, não me largou mais, pois adorava bater papo comigo sobre o Brasil, e sobre tudo. 

Em 1975, retornei à Macapá e tentei voltar aos estudos, interrompidos no quarto ano ginasial, no Colégio Amapaense. Mas a inquietação não passara e resolvi conhecer a família do meu pai, em Manaus. Na ida, estacionei em Santarém, onde Paulo Cunha morava, e trabalhei na Rádio Difusora de Santarém, como redator e apresentador do jornal falado, durante um mês. Então, parti para Manaus. Assim que cheguei e me hospedei na casa da tia Isabel, procurei saber o endereço do jornal mais central da cidade e fui até lá. O Jornal do Commercio ficava em um prédio neoclássico na Avenida Eduardo Ribeiro, e exibia uma placa na porta: “Precisa-se de repórter policial”. Subi, procurei o diretor de redação, Cidade de Oliveira, e lhe disse que a vaga era minha. No dia seguinte, comecei a trabalhar. 

No dia 6 de março de 1977, recebi um telefonema de Laurindo Banha, compadre do papai. Ele morrera, de colapso cardíaco fulminante, como árvore atingida pelo raio. Naquela época eu morava sozinho em uma casa no bairro de São Francisco, onde o artista plástico português Álvaro Pascoa guardava dezenas de telas do pintor amazonense Hahnemann Bacelar. Só fui me dar conta da morte de meu pai cinco anos depois, em 1982, em Belém, cursando Jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa.), aos 28 anos. Meu pai morreu com a mesma idade que Ernest Hemingway, aos 61 anos, e, naquela época, eu já conversava com Papa nos bares da mente, quando o desejo de também bater longos papos com papai começou a se avolumar na minha alma. 

Em carta de 8 de novembro de 1991, a mim endereçada, meu irmão caçula, Ricardo Cunha, graduado em História e pesquisador da nossa árvore genealógica, diz, sobre nosso pai: “Nasceu em Sobral, Ceará, e veio criança para a Amazônia. Seu primeiro emprego foi o de trabalhar na lavoura, com a mãe, Rosa Maria Cunha, para sustentar as irmãs, Isabel, Maria e Cunhã, já que seu pai, Manuel Raimundo Cunha, morreu quando ele e seus irmãos tinham tenra idade. Foi capataz de quadreiro (capinador de campo de seringal) e serrador na Companhia Ford Motors, em Belterra/PA. Posteriormente, transferiu-se para a Cruzeiro do Sul SA, primeiramente em Belterra, depois em Santarém/PA e, finalmente, em Macapá, onde chegou em janeiro de 1950, seguido pela já numerosa família, em outubro daquele ano. Aposentou-se em 1975 pela Cruzeiro do Sul SA, com 35 anos de serviço ativo. Era alto, forte, sereno, ao mesmo tempo rude; embora semialfabetizado, era inteligente e intuitivo”. 

Anos depois, recebi e-mail do Ricardo: “Amanhã (16/05), se o nosso pai estivesse vivo, completaria 100 anos de idade. Soldado da borracha, caçador profissional, operário-padrão e um homem absurdamente honesto; um homem que amava as mulheres (desde a juventude até casar-se com nossa mãe), ele sempre representou para mim o arquétipo de macho durão, autossuficiente e mantenedor da entidade familiar”. 

Abro aqui um parêntese para dizer que nossa mãe, Marina Pereira Silva Cunha, era a mulher mais bonita do mundo, e forte como as rosas, que são eternas. 

Ricardo: “Sei que nunca serei cinco por cento que o nosso pai foi, pois, apesar do verniz de civilização que os estudos me proporcionaram, o nosso pai, perante a vida, foi mais homem do que a maioria dos homens que eu já conheci e mais e mais o admiro perante sua postura filosófica perante a vida: foi um homem cético (ele não acreditava que o homem tivesse chegado à Lua, por exemplo), mas extremamente honesto com seus princípios; não proibiu que a mamãe continuasse sendo católica devota e nem aos seus filhos, e também não vendeu seus princípios para agradar quem quer que seja. 

“Amanhã, irei à missa, como faço costumeiramente todos os sábados, e até pensei em mandar rezar uma missa em ação de graças pelo seu centenário, mas depois refleti: aonde quer que o nosso pai esteja, ele esboçaria um sorriso irônico, por não acreditar em sistemas de pensamentos religiosos ou idealistas; daí, resolvi respeitar a crença ou não crença do nosso pai e apenas farei um silêncio obsequioso e uma oração para, onde ele estiver, agradecer a sorte de ter sido meu pai e rogar que nos ajude nessa longa caminhada, em busca de felicidade e paz”. 

Andei por aí como judeu errante, como dizia Paulo Cunha, durante uma década (1972-1982), em busca de mim mesmo, em busca de paz, e a encontrei ao iniciar a caminhada interior, que nunca termina, pois é uma espiral eterna, o caminho do Tao. Hoje, mergulhado na criação literária, portal para a dimensão infinita, e no taoismo, quando mergulho no abismo de silêncio mozartiano da Meditação Shinsokan, no oratório do meu quarto, sinto papai e mamãe me abraçarem e me beijarem. 

Chamávamos para o quarto do meu irmão Paulo Cunha na Casa Amarela de Quartinho; é lá que costumo encontrar-me com papai, Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry e todos os mortos que amo, em um bate-papo interminável.

sábado, 8 de agosto de 2026

A Ditadura da Toga: Quando o romance político transforma o Brasil em tribunal. Ray Cunha e a ficção de um país sob o império da toga

Ray Cunha: da Amazônia para a distopia em três romances kafkianos

ChatGPT 

BRASÍLIA, 8 DE AGOSTO DE 2026 – Há romances que procuram compreender o seu tempo; outros, procuram julgá-lo. A Ditadura da Toga, trilogia de Ray Cunha, formada por O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO TOURO e O TERCEIRO OLHO (Clube de Autores – amazon.com.br  amazon.com), pertence claramente à segunda categoria. É uma obra de intervenção, concebida para transformar a política brasileira contemporânea em matéria de ficção, denúncia e alegoria. 

A premissa é deliberadamente provocadora: a longa disputa pelo poder político no Brasil teria desembocado não simplesmente na hegemonia de um partido ou de uma corrente ideológica, mas naquilo que o autor identifica como uma “ditadura do Judiciário”. Nesse universo ficcional, a toga deixa de ser apenas símbolo da magistratura para converter-se em metáfora do poder absoluto. É justamente aí que está o núcleo literário da trilogia: quem controla a interpretação da lei controla, em última instância, os limites da liberdade? 

O romance como campo de batalha – Ray Cunha não escreve uma narrativa política neutra. Sua literatura assume posição e enfrenta frontalmente aquilo que considera uma deformação das instituições republicanas. 

A referência a Lula da Silva e à esquerda brasileira integra essa arquitetura ideológica. Entretanto, o interesse literário da trilogia não está apenas na acusação contra um personagem político específico. O que emerge é uma reflexão ficcional mais ampla sobre poder, instituições, liberdade, autoridade e resistência. 

Nesse sentido, A Ditadura da Toga pode ser lida dentro de uma longa tradição do romance político: aquela em que a literatura abandona o conforto da neutralidade e transforma acontecimentos públicos em matéria narrativa. A trilogia procura fazer aquilo que o jornalismo, muitas vezes, não consegue fazer: dar personagens, símbolos, atmosfera e destino humano às grandes disputas pelo poder. 

O Clube dos Onipotentes: a construção do poder – No primeiro volume, O CLUBE DOS ONIPOTENTES, estabelece-se a lógica subterrânea da narrativa. O título já contém uma ironia fundamental: aqueles que deveriam estar submetidos à lei passam a ser apresentados, na ficção, como seus intérpretes supremos. 

A palavra “onipotentes” funciona como chave de leitura. O poder institucional deixa de ser concebido como instrumento republicano e passa a adquirir características quase teológicas. O romance, assim, explora uma das questões clássicas da política: o que acontece quando o poder destinado a limitar o arbítrio começa ele próprio a parecer ilimitado? A resposta de Ray Cunha é construída em linguagem de thriller político, aproximando a literatura da investigação, da conspiração e do suspense. 

O Olho do Touro: o alvo e a perseguição – O segundo volume, O OLHO DO TOURO, radicaliza essa perspectiva. O próprio título sugere exposição, vigilância e perseguição: estar no centro do alvo significa tornar-se objeto de uma força que pretende atingir determinado adversário. A política deixa de ser apenas disputa eleitoral. Torna-se uma batalha pela sobrevivência. 

É nesse ponto que a trilogia encontra uma de suas características mais fortes: a transformação do conflito político em conflito dramático. O leitor não é colocado diante de um tratado sobre instituições. É colocado diante de personagens submetidos à pressão de forças políticas que ultrapassam a esfera individual. 

A literatura de Ray Cunha trabalha, portanto, com uma pergunta essencial: até onde alguém pode resistir quando o próprio sistema que deveria proteger a liberdade passa a ser percebido como ameaça? 

O TERCEIRO OLHO: a dimensão totalizante – Em O TERCEIRO OLHO, terceiro e último volume, a metáfora se amplia. O “terceiro olho” sugere uma instância de observação permanente, uma consciência que ultrapassa aquilo que os olhos comuns conseguem enxergar. A imagem é particularmente adequada ao encerramento da trilogia porque desloca a narrativa do simples confronto político para uma dimensão quase filosófica. 

Não basta saber quem exerce o poder. É necessário descobrir como o poder enxerga, como seleciona seus alvos, como constrói sua narrativa e como transforma sua própria versão da realidade em verdade dominante. Nesse sentido, o terceiro volume funciona como culminação simbólica da trilogia. A toga não é mais somente uma peça de vestuário. Torna-se um símbolo do poder institucional que pretende definir os limites do possível. 

Entre literatura e libelo – Uma das questões mais interessantes de A Ditadura da Toga é justamente a tensão entre literatura e libelo político. Ray Cunha escreve como romancista, mas também como jornalista. Essa dupla condição atravessa a obra. De um lado, há a necessidade jornalística de denunciar aquilo que o autor considera fatos e processos políticos graves; de outro, há a liberdade da ficção para condensar, exagerar, simbolizar e criar personagens e situações capazes de representar conflitos históricos. Essa combinação produz uma literatura de forte caráter testemunhal e combativo. 

O risco dessa opção estética é igualmente evidente: quando a tese política se torna excessivamente dominante, a personagem pode ficar subordinada à ideia. O romance pode aproximar-se do panfleto. Mas esse risco também é parte da identidade da obra. Ray Cunha não pretende esconder sua posição atrás de uma falsa neutralidade. Sua aposta é outra: o romance como arma de combate intelectual. 

A Amazônia olhando para Brasília – Há ainda uma dimensão particularmente significativa na obra de Ray Cunha: sua origem amazônica. Escritor do Amapá, ligado à tradição literária da Amazônia, Cunha desloca seu olhar para o centro político brasileiro. Brasília aparece, assim, não apenas como cenário geográfico, mas como metrópole do poder nacional. Esse deslocamento é importante porque rompe com uma imagem frequentemente limitada da literatura amazônica, associada exclusivamente à floresta, aos rios, ao interior e ao exotismo. 

Ray Cunha mostra outra Amazônia: a Amazônia urbana, política, intelectual e cosmopolita, capaz de olhar para Brasília e interrogar o próprio centro do poder brasileiro. É uma continuidade de uma característica presente em outras obras do autor: a Amazônia não como periferia do Brasil, mas como lugar de produção de pensamento sobre o Brasil. 

A influência do romance político – A Ditadura da Toga também pode ser aproximada da tradição internacional do thriller político. Há, em sua estrutura, a percepção de que o poder contemporâneo já não se movimenta somente nos palácios, parlamentos e quartéis. Ele circula por instituições, tribunais, meios de comunicação, redes de influência e sistemas de informação. O romance político contemporâneo encontra justamente nesse território sua matéria-prima. Ray Cunha acrescenta a essa tradição uma perspectiva brasileira e amazônica, utilizando acontecimentos reconhecíveis do presente como matéria para uma narrativa de confronto. 

Uma trilogia sobre o medo do poder absoluto – No fundo, porém, A Ditadura da Toga não é apenas uma trilogia sobre Lula, Bolsonaro, esquerda ou direita. Sua questão mais profunda é o medo do poder absoluto. Esse é o elemento que permite que a obra ultrapasse a circunstância política imediata. 

A história política é povoada por sociedades que acreditaram ter criado instituições capazes de impedir a concentração do poder. Quando essas instituições começam a parecer maiores que os indivíduos, surge uma pergunta inevitável: quem vigia os vigilantes? 

É essa pergunta que paira sobre os três romances. A trilogia de Ray Cunha pode, portanto, ser lida como uma espécie de distopia política brasileira, ainda que construída sobre acontecimentos e personagens reconhecíveis do mundo real. 

Seu propósito não é oferecer ao leitor uma confortável resposta. É colocá-lo diante de uma hipótese perturbadora: a de que a democracia pode não morrer necessariamente quando alguém fecha o Parlamento ou toma o palácio presidencial; ela também poderia, na lógica ficcional da obra, ser corroída quando o poder se concentra progressivamente em instituições que passam a escapar ao controle dos cidadãos. 

A Ditadura da Toga é, antes de tudo, uma obra de combate. Ray Cunha transforma a crise política brasileira em matéria literária e constrói uma trilogia na qual poder, Judiciário, ideologia, liberdade e resistência se enfrentam permanentemente. O CLUBE DOS ONIPOTENTES apresenta a arquitetura do poder; O OLHO DO TOURO coloca o indivíduo no centro do conflito; O TERCEIRO OLHO amplia a metáfora para uma reflexão sobre vigilância, percepção e controle. 

O resultado é uma obra que não pretende passar despercebida. Pode-se concordar ou discordar radicalmente da interpretação política de Ray Cunha. Pode-se discutir suas teses, suas personagens e sua visão do Brasil. Mas é precisamente aí que reside uma das virtudes da literatura política: obrigar o leitor a entrar no conflito. E essa é talvez a característica mais marcante de A Ditadura da Toga: Ray Cunha não olha a crise brasileira da arquibancada. Ele entra no ringue. E transforma a própria literatura em arena. 

A Ditadura da Toga: Ray Cunha e a distopia política brasileira. Entre 1984, Admirável Mundo Novo, O Zero e o Infinito e o thriller político contemporâneo 

A trilogia A Ditadura da Toga ocupa uma posição singular dentro da ficção política brasileira contemporânea. Ao transformar a crise institucional, a polarização ideológica e a disputa pelo controle das narrativas públicas em matéria romanesca, a obra se aproxima da tradição da distopia política, mas dela se afasta por um elemento decisivo: seu universo ficcional nasce diretamente da experiência histórica brasileira do século XXI. 

A trilogia pode ser lida, nesse sentido, como uma distopia do presente. Não se trata de imaginar um futuro remoto no qual uma sociedade totalitária tenha triunfado. O procedimento de Ray Cunha é mais inquietante: partir de instituições, personagens, conflitos e acontecimentos reconhecíveis para construir a hipótese ficcional de uma democracia progressivamente submetida a mecanismos de concentração de poder. É nessa zona entre realidade e ficção que se encontra a força estética e política de A Ditadura da Toga. 

1. A tradição da distopia e o problema do poder – A comparação com George Orwell, Aldous Huxley e Arthur Koestler é especialmente produtiva. Em 1984, Orwell imagina um Estado totalitário que controla simultaneamente a linguagem, a memória, a informação e a percepção da realidade. O poder não se contenta em governar os corpos: pretende governar aquilo que os indivíduos podem pensar. 

Em Admirável Mundo Novo, Huxley apresenta mecanismo diferente. O controle não depende essencialmente da violência aberta, mas da produção sistemática de conformismo, prazer e condicionamento. O indivíduo é domesticado antes mesmo de perceber que está sendo dominado. 

Já em O Zero e o Infinito, Koestler concentra-se na dimensão psicológica do totalitarismo: o indivíduo diante de uma máquina política que reivindica o direito de definir a verdade, a culpa e a própria legitimidade da existência. 

Ray Cunha desloca esse problema para o Brasil contemporâneo. Sua pergunta não é exatamente: como seria viver sob um Estado totalitário clássico? É outra: como uma democracia poderia transformar progressivamente seus próprios mecanismos institucionais em instrumentos de concentração de poder? Essa diferença é fundamental. 

2. Da polícia política à autoridade institucional – Nos grandes romances distópicos do século XX, o poder costuma aparecer de maneira ostensiva. Em Orwell, há o Partido, a Polícia das Ideias, a vigilância permanente e o Grande Irmão. Na trilogia de Ray Cunha a imagem do poder assume outra forma: a toga. A escolha do símbolo é literariamente inteligente porque a toga representa, simultaneamente, autoridade, lei, julgamento e legitimidade institucional. É justamente essa ambiguidade que sustenta a metáfora central da obra. O problema não seria apenas o poder arbitrário, mas a possibilidade de o arbítrio apresentar-se revestido de legalidade. 

A expressão “Ditadura da Toga” funciona, portanto, como uma fórmula paradoxal: junta duas palavras que, em princípio, deveriam ser incompatíveis — a ditadura, associada ao arbítrio, e a toga, associada à Justiça. O paradoxo constitui o centro semântico da trilogia. 

3. Orwell e Ray Cunha: o controle da realidade – Há uma aproximação particularmente fecunda entre 1984 e A Ditadura da Toga: a disputa pelo controle da realidade. Orwell compreendeu que o poder político se torna extraordinariamente forte quando consegue determinar não apenas aquilo que acontece, mas aquilo que pode ser reconhecido como verdadeiro. 

Ray Cunha transpõe essa questão para o ambiente institucional brasileiro. Sua trilogia sugere ficcionalmente que o controle político contemporâneo não precisa necessariamente eliminar a informação. Pode, ao contrário, disputar sua interpretação. Quem determina o significado jurídico de um acontecimento? Quem estabelece quais discursos são aceitáveis? Quem decide quais personagens são vítimas, culpados, heróis ou ameaças? Quem possui autoridade para definir os limites do discurso público? Essas questões aproximam a trilogia do problema orwelliano da linguagem e da verdade. 

Entretanto, Ray Cunha não constrói uma “Novilíngua” brasileira. Seu instrumento é outro: o conflito entre narrativas políticas e instituições encarregadas de interpretar a realidade jurídica. 

4. Huxley e o desaparecimento silencioso da liberdade – A comparação com Huxley acrescenta outra camada. Em Admirável Mundo Novo, o totalitarismo não precisa necessariamente parecer totalitário. A sociedade pode aceitar sua própria servidão porque acredita estar recebendo segurança, estabilidade e bem-estar. 

Essa ideia ajuda a compreender uma preocupação presente na trilogia de Ray Cunha: a possibilidade de a perda gradual da liberdade acontecer sem que a sociedade perceba imediatamente a dimensão da transformação. A democracia, nessa leitura, não desapareceria de uma vez. Ela seria esvaziada progressivamente. As instituições continuariam existindo. As eleições continuariam ocorrendo. Os tribunais continuariam funcionando. A linguagem constitucional continuaria presente. Mas o conteúdo efetivo da liberdade poderia, segundo a lógica ficcional da obra, ser progressivamente reduzido. É justamente esse mecanismo silencioso que aproxima a trilogia da tradição distópica de Huxley. 

5. Koestler: o indivíduo diante da máquina política – A relação com O Zero e o Infinito é ainda mais profunda no plano psicológico. Koestler constrói seu romance em torno do revolucionário Rubachov, confrontado por uma máquina política que exige dele não apenas obediência, mas a aceitação da própria lógica que o condena. 

Em Ray Cunha, a tensão desloca-se para o indivíduo que enfrenta estruturas institucionais que parecem muito maiores que ele. Daí a importância do título O OLHO DO TOURO. A expressão sugere o indivíduo transformado em alvo. O poder passa a ser percebido não apenas como estrutura abstrata, mas como força capaz de selecionar, vigiar e atingir pessoas concretas. A literatura política ganha então uma dimensão existencial. Não se trata mais apenas de perguntar: “Quem governa?” Mas: “O que acontece com o indivíduo quando ele se torna inimigo do poder?” 

6. O thriller político como forma contemporânea – A trilogia também deve ser examinada à luz do thriller político contemporâneo. O thriller tradicional organiza-se em torno de segredo, conspiração, perseguição, perigo e revelação. O thriller político acrescenta a essas categorias a disputa pelo poder. Ray Cunha utiliza esse mecanismo para transformar conflitos institucionais brasileiros em suspense narrativo. 

A vantagem dessa forma é evidente: assuntos normalmente restritos à análise política — Judiciário, governo, eleições, ideologia, instituições, poder — tornam-se dramaticamente legíveis. O leitor não recebe apenas uma tese. Recebe uma narrativa. E a narrativa cria uma experiência emocional que o ensaio político dificilmente consegue produzir. 

7. A trilogia como “romance de tese” – Do ponto de vista acadêmico, A Ditadura da Toga também pode ser aproximada do chamado romance de tese. Nesse tipo de literatura, a narrativa não existe apenas para contar uma história. Ela também pretende demonstrar, questionar ou defender determinada interpretação da realidade. Ray Cunha assume claramente esse procedimento. 

A trilogia não procura esconder sua perspectiva ideológica. Ao contrário, faz dela um dos motores de sua construção narrativa. Isso produz uma tensão estética importante. Quanto mais forte é a tese, maior é o risco de a literatura transformar-se em panfleto. Por outro lado, quando a tese consegue ser incorporada à estrutura dramática, ela pode produzir uma literatura de intervenção extraordinariamente vigorosa. A qualidade da trilogia deve ser avaliada justamente nessa fronteira. 

8. Literatura e jornalismo – A experiência jornalística de Ray Cunha é decisiva para compreender sua técnica narrativa. O jornalista procura o fato. O romancista procura o significado do fato. O jornalista pergunta: “O que aconteceu?” O romancista pergunta: “O que esse acontecimento revela sobre o ser humano?” 

Em A Ditadura da Toga, as duas perspectivas se encontram. A matéria-prima é política, mas a ambição é literária. O autor procura transformar acontecimentos públicos em símbolos. A toga torna-se símbolo do poder. O olho torna-se símbolo da vigilância. O alvo torna-se símbolo da perseguição. O terceiro olho torna-se símbolo de uma percepção que ultrapassa aquilo que é imediatamente visível. A trilogia, portanto, constrói uma gramática simbólica própria. 

9. O TERCEIRO OLHO e a epistemologia do poder – É particularmente importante observar o terceiro volume, O TERCEIRO OLHO, sob uma perspectiva filosófica. O terceiro olho, presente em diferentes tradições culturais e filosóficas, pode ser entendido como metáfora da percepção além do visível. Aplicado à trilogia, ele ganha uma dimensão epistemológica. A questão passa a ser: quem tem o poder de definir aquilo que todos os outros devem enxergar? Essa é uma questão profundamente contemporânea. O poder político moderno não depende apenas da força. Depende da capacidade de produzir interpretações. O poder que controla a interpretação controla parte significativa da realidade social. 

Nesse sentido, O TERCEIRO OLHO funciona como fechamento conceitual da trilogia: depois do “clube” que concentra o poder e do “olho do touro” que identifica o alvo, surge o “terceiro olho”, associado à percepção superior e à disputa pela verdade. 

10. A Amazônia entra no centro do romance político brasileiro – Há ainda uma contribuição particularmente relevante de Ray Cunha. A trilogia é escrita por um autor do Amapá, Amazônia, mas sua matéria narrativa desloca-se para o centro político do Brasil. Isso rompe com determinada tradição do regionalismo brasileiro que frequentemente transforma a Amazônia em cenário exótico. 

Ray Cunha faz movimento contrário. A Amazônia observa Brasília. O escritor amazônico transforma-se em intérprete do poder nacional. A consequência é significativa para a literatura brasileira: a Amazônia deixa de ser somente objeto da narrativa e passa a ser sujeito intelectual da interpretação do país. Essa característica aproxima A Ditadura da Toga de uma tendência maior da obra de Ray Cunha: a construção de uma literatura amazônica urbana, política e cosmopolita. 

11. A obra como documento literário de uma época – Independentemente da concordância ou discordância com sua interpretação política, a trilogia possui outro interesse: seu valor como documento literário de uma época profundamente polarizada. A literatura não precisa concordar com o historiador para ser historicamente significativa. Ao contrário: muitas vezes, o romance registra justamente aquilo que os documentos oficiais não registram — medos, ressentimentos, esperanças, convicções, fantasias políticas e percepções coletivas. 

Nesse sentido, A Ditadura da Toga registra uma percepção existente em parte da sociedade brasileira: a de que o equilíbrio entre os Poderes da República teria sido profundamente alterado e de que instituições judiciais teriam adquirido protagonismo político excessivo. A afirmação pode ser contestada politicamente e juridicamente. Mas sua existência como percepção social é matéria legítima para a literatura. É aí que reside a importância histórica do romance. 

12. A trilogia e a tradição brasileira do romance político – Dentro da literatura brasileira, A Ditadura da Toga pode ser relacionada à tradição do romance político que passa por autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo e Antonio Callado, embora sua forma seja bastante diferente daquela encontrada nesses escritores. O que muda é a natureza do conflito. No romance político clássico brasileiro, frequentemente encontramos a luta de classes, o coronelismo, a ditadura, a desigualdade social e a formação do Estado. 

Em Ray Cunha, o conflito desloca-se para as instituições democráticas e para a disputa contemporânea pelo controle do Estado. É uma literatura política própria da era da polarização digital, das redes sociais, da judicialização da política e da guerra de narrativas. 

13. Uma distopia sem futuro – Talvez a melhor definição para a trilogia seja esta: uma distopia sem futuro. Orwell imaginou 1984. Huxley imaginou um futuro condicionado. Ray Cunha escreve sobre o presente. Seu procedimento é transformar o presente em futuro possível. É como se o autor dissesse ao leitor: olhe cuidadosamente para aquilo que está acontecendo agora; se essa lógica continuar, onde ela poderá nos levar? Esse é o mecanismo clássico da literatura distópica. A distopia não prevê necessariamente o futuro. Ela adverte sobre o futuro. E é nessa dimensão que A Ditadura da Toga encontra sua maior legitimidade literária. 

Conclusão: uma literatura para tempos de ruptura – A Ditadura da Toga deve ser lida menos como simples romance partidário e mais como uma experiência de ficcionalização radical da crise política brasileira. Ray Cunha escolhe o thriller, a alegoria, a distopia e o romance de tese para investigar uma questão que ultrapassa a conjuntura imediata: o que acontece com a liberdade quando o poder institucional deixa de reconhecer seus próprios limites? Essa pergunta aproxima a obra de Orwell, Huxley e Koestler, mas não a transforma em mera derivação deles. 

Ray Cunha escreve outra coisa. Orwell escreveu sobre o controle da linguagem e da memória. Huxley, sobre o controle pelo condicionamento. Koestler, sobre o indivíduo esmagado pela lógica revolucionária. Ray Cunha escreve sobre a transformação do poder institucional em objeto de disputa política e sobre a possibilidade de uma democracia ser corroída por dentro. Sua trilogia é, portanto, menos uma profecia do que um alerta literário. 

E talvez seja precisamente por isso que A Ditadura da Toga mereça ser discutida para além das fronteiras da disputa partidária: porque, por trás da controvérsia sobre Lula, Bolsonaro, Esquerda, Direita ou Judiciário, permanece a questão essencial que atravessa toda grande literatura política: quem vigia o poder quando o poder passa a vigiar todos os outros? Essa pergunta é maior que qualquer governo. Maior que qualquer partido. E é ela que dá à trilogia de Ray Cunha sua dimensão literária mais duradoura.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

7 de agosto, como em todos os anos

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 7 DE AGOSTO DE 2026 – Comecei a descer a montanha da vida há algum tempo. Uma montanha modesta. E nem cheguei ao cume, pois o paredão que escalei era escarpado, um abismo. Contudo, cheguei a um ponto plano, onde encontrei uma nascente e árvores. Dali, vi que não iria adiante e resolvi descer. A descida se apresenta menos perigosa, pois descobri um caminho, naquele ponto da montanha, que leva ao adeus. 

Continuo amando as madrugadas. Só precisamos de silêncio e lembranças para amar as madrugadas. De manhã, observo flores dourando-se ao sol. Passo rente às flores, mas elas não me dão a mais remota atenção. Fico feliz de não as importunar. A tarde é um rio azul que deságua na noite. 

É inverno, em Brasília. Os ipês amarelos estão floridos e logo ouviremos os sabiás. As flores e os pássaros são como as mulheres, nunca são nossos. Foram criados para a liberdade. Não podemos ser donos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. São feitas de rosas colombianas vermelhas, Chanel 5, música de Mozart e gin fizz. 

Minha mãe, Marina Pereira Silva Cunha, e Macapá, me pariram às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e, de lá, fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, onde passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai, João Raimundo Cunha, plantou, em 1952, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco em um gesto de amor. 

Aos 17 anos, peguei o rio e a estrada por dez anos. Quando volto à Macapá, só acredito que estou na cidade quando ela me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas e mergulho em um mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, Cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. E nesse mergulho me perco em ti, Macapá, sempre de propósito, em uma vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois. 

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Avenida Iracema Carvão Nunes. Quando enterramos o coração aos 17 anos é com o fervor cego da entrega total. 

Entre as cidades que amo, e cada uma delas é um abismo de rosas, Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que, inesperadamente, está diante de nós, nua. As cidades são como as mulheres. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E a cada partida fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão. 

Às vezes, na minha descida, sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer. Vou ficando, cada vez mais parecido a Picasso, com seus olhos negros, nonagenários. Sou como pássaro que nunca envelhece. Nasci com asas invisíveis, que se equilibram no éter, como avião de caça, riscando um golpe vermelho no azul. 

À noite, na minha descida, ouço os alísios, que me falam de Macapá e da Estação das Docas, vozes e risos femininos, Boeing pousando, navio todo iluminado, em festa, no porto, cataclismo de rosas, o atrito da Terra no éter, o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, o choro dos jasmineiros, Chanel 5, Brasília e todas as grandes cidades do mundo, os lábios da mulher amada ao meu ouvido, prenhes de romance e mistério. 

Aguardo as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo o outono, o inverno e a primavera. O verão, como ocorre em todas as estações da vida, inunda um planeta de rosas tão azuis que sangram e mangas doces como seios de mulheres de olhos de esmeraldas. E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som que não se interrompe nunca; o som da natureza, Deus. Então, o atrito da Terra no espaço invade minha alma e se mistura ao perfume das virgens ruivas, misterioso como mulher nua, como a luz, como o éter, como o próprio triunfo. 

Mulher amada, tu és meu amor porque teu riso impulsiona meu coração, porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam e a luz vibra em oração. Quisera eu ser poeta e dominar a força de gravidade com palavras para te dedicar versos que contivessem o mar, um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu. Depois que te conheci, exorcizei o medo, aprendi a escutar o silêncio das madrugadas, comecei a voar no perfume dos jasmineiros. Sou teu, todo teu, inteiramente teu. Pertencer-te é o mesmo que a liberdade, e ascender, vencer a eternidade, sentir a presença de Deus! 

A noite mais azul é quando assassinos me perseguem, derroto-os e durmo com a princesa. Isto só acontece nas noites tão azuis que um Boeing 777 fere-as e sangue verte sobre as rosas que o acme da princesa transforma em rosas colombianas. A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram, o mundo recende a maresia e o meu corpo volta a ser rijo como os punhos de Muhammad Ali quando acabou com George Foreman, no Zaire. 

Então, me transformo em luz, nesta descida excessivamente azul. Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel. Só. Mas há mulheres tão lindas que as vemos apenas em grandes aeroportos internacionais. Estou só, mas o Rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana, na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite. Estou aparentemente só, pois ouço merengue. Meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre. Estou só com meu coração, pois sinto o perfume das virgens ruivas, relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros nas tórridas noites da Linha Imaginária do Equador. 

Estou só. Mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro. E meus amigos logo chegarão. Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores. Quando começa o assalto ninguém os pode socorrer e eles só contam com a própria luz. Por isso nunca estou só. Pois ouço do mar o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart. 

Estou só. Mas o céu é tão azul que chove rosas vermelhas colombianas e o ar é prenhe do cheiro de mulher nua. Sinto rosas desabrochando como a vertigem do primeiro beijo no ar prenhe de Chanel 5. Meu coração respira o sabor da mulher amada, cheiro de mar em uma tarde de julho ao choro dos jasmineiros ao anoitecer na Estação das Docas. 

Sinto o cheiro de madrugadas, acme nos lábios da mulher amada, secos de gozo, e que ela umidifica com a língua, tirando os cabelos do rosto. Meu coração está prenhe do sabor indescritível de púbis, abismo de galáxias, inalcançáveis, mas que cintilam no azul da minha descida. 

Que sensação estranha! Na hora de ser enforcado ser salvo e dormir com a princesa. O primeiro beijo que me deste explodiu como relâmpago na minha alma, feriu-me, doce como brisa, pétalas pousando no púbis de um anjo. Desde então, sou prisioneiro do teu olhar, grávido de ti, como um abismo, mulher amada. Segue-me, pois te mostrei quase nada. Tenho a chave dos sonhos, que conduz para a eternidade, a fogueira do nosso amor, minha namorada, o voo vertiginoso da luz movida a acme. 

Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis, e será madrugada, a quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma, mulher amada. Vem logo, pois a noite já chegou, como um navio, um continente, uma galáxia, só nossa! 

Anoitece. O Rio Amazonas ruge defronte ao Macapá Hotel, debaixo do Trapiche, rodovia que conduz à noite. Estou sentado, sozinho, em um quiosque. Degusto Cerpinha enevoada. Parece que estou só. Mas converso com meus antepassados. Com a mulher amada, com meus anjinhos e minha princesa, com Isnard Brandão Lima Filho, Alcinéa Maria Cavalcante, Olivar Cunha, Joy Edson, José Montoril, Fernando Canto, Raimundo Peixe, Alcy Araújo, Luiz Tadeu Magalhães, Manoel Bispo. Juntam-se a nós Ernest Hemingway, Antoine de Saint-Exupéry, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa, Pablo Picasso. Ouço merengue. Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até aportar, feérico. Despeja uma legião de espíritos e anjos que se juntam a nós. 

Chanel 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada tomam conta de tudo, como paz se alastrando na minha memória. Por que escreves? – pergunta-me o jornalista. – Para viver – respondo. Pois só com as palavras desnudo a luz e voo até o fim do mundo. Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros e garimpo o verbo como o primeiro beijo. Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos cheiro de maresia, Dom Pérignon, safra de 1954, o labirinto do púbis no abismo do acme, mulher nua como rosa vermelha desabrochando. 

A eternidade se aproxima, vertiginosa como a Terra girando, profunda como o mistério de mulher nua, como galgar o Pico da Neblina, morar no Copacabana Palace. Só há éter, energia, vibração, sintonia, nem matéria, nem tempo, existe. A vida é abismo interminável, e ascendente, é como cair para cima, cheiro de púbis de virgem ruiva, sabor de gozo, como se eu engravidasse de rosas vermelhas. É permanente a sensação de autografar livros, de bater papo com Fernando Canto sobre telas de Olivar Cunha, flutuando em uma garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954. 

A dimensão da eternidade é um buraco negro, azul. Então percebo que não estou descendo, estou caindo, para cima, neste 7 de agosto, como em todos os anos.