segunda-feira, 20 de julho de 2026

Um senador inesquecível, que evoca o fedor de ácido úrico que sentimos nas paradas de ônibus

Porco ratuíno, criado pela inteligência artificial ChatGPT

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 20 DE JULHO DE 2026 – De vez em quando vou ao Congresso Nacional para fazer algum freelance, mas, até um certo tempo atrás, passava boa parte do dia, lá, cobrindo as atividades para jornal ou portal, ou assessorando parlamentares. Para um escritor, o Congresso é um laboratório, pois transita por lá uma fauna riquíssima em tipos, capaz de satisfazer os mais criativos ficcionistas. Foi assim que conheci um senador inesquecível, que evoca aquele fedor de ácido úrico que às vezes sentimos nas paradas de ônibus. 

Era o tipo que carrega consigo, sempre, uma saca de confete. Seu corpanzil esparramado na poltrona atrás da sua mesa de trabalho lembrava um animal híbrido, com cabeça de ratazana e, do pescoço aos pequenos pés, um yorkshire. Quem o via, mesmo uma única vez, jamais o esquecia, muito menos quem convivia com ele; aí, se tornavam puxa-sacos, embora cultivassem contra ele o sentimento que oscila da bajulação ao ódio, movidos pelo interesse, pois só assim era possível conviver com ele, já que seria impossível sentir amor por uma criatura tão mesquinha e odiosa. 

Nesses casos, o interesse transforma os interessados em diplomatas, sempre com um facão mental pronto para o golpe, com a peixeira entrando pela saboneteira e mergulhando até o coração. Mas, para não exaurir a fonte de corrupção, vão golpeando aos pouquinhos o objeto do seu ódio contido, procurando tirar alguma espécie de proveito, alimentando a esperança de vê-lo exangue, pilhado, morto. Um jogo fatal no esgoto. 

O senador era quase uma unanimidade, incensado pela imprensa setorizada no Congresso Nacional. Os que transcendiam o olhar de mero jornalista logo percebiam o jogo. Se os gabinetes dos senadores do baixo clero são conjuntos principescos de salas, os gabinetes dos incensados pela mídia são mais impressionantes ainda, caso do senador em questão. Seu gabinete estava sempre de portas abertas para jornalistas, à disposição para a prestação dos mais variados serviços, de xeroxes a telefonemas internacionais e passagens aéreas, até presentes em dinheiro, o que alguns repórteres adoravam, e se entregavam ao jogo com o mesmo brilho nos olhos dos glutões nos banquetes. 

Falar em glutão, essa era outra das características do senador que o tornavam tão inesquecível, e ultrajante. Ele praticamente não mastigava. Comia no almoço, facilmente, um quilo de boia, que ia se acamar numa pança roliça, um tonel, rijo de tão inflado, o intestino grosso transformado em fossa, com, seguramente, meia centena de quilos de dejetos presos nas dobras da tripa, somados aos 100 quilos de peso do paquiderme, muitos dos quais armazenados na barriga, fígado, quadris e coxas. 

Outro fator impressionante era sua história, real ou imaginária, que ele contava para a plateia amestrada. Afirmava que herdara do seu pai, desempregado crônico, sua prodigiosa energia sexual e instrumento asinino, e, da mãe, dona de um mercadinho, o tino para os negócios. O fato é que desenvolveu o desprezo com que tratava as mulheres observando como seu pai se comportava com sua mãe; ela passava o dia trabalhando e era trabalhada, assim que se deitava, por um macho bem-disposto. Ela costumava dormir quase que imediatamente, embora mantivesse a consciência de que era penetrada pelo desocupado. Inconscientemente, procurava facilitar as coisas, para não sentir ardência no dia seguinte. 

– Meus caros, diletos amigos, chegou a hora de nos assenhorearmos deste fabuloso país, chegou a hora de ocuparmos nosso bunker, o bunker da elite de Brasília, que somos nós. Precisamos terminar de construir nossa Copenhagen, cercando a Praça dos Três Poderes com uma verdadeira Muralha da China. Precisamos, juntamente com Lula no Palácio do Planalto, instalar logo a ditadura, e se espojar em uma bacanal imobiliária e de transportes públicos, uma bacanal jamais vista, tudo com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e da burra, é claro – discursou o porco com cabeça de rato. 

E continuou: 

– Tudo será pago: dos estacionamentos públicos, a manutenção dos cemitérios, o setor de saúde, a segurança, a exploração de água, esgoto e luz ao controle de fornecimento de alimentos a materiais em geral utilizados no setor público, principalmente material para as escolas públicas e para os hospitais; asfalto, grama, e, claro, material de construção; e partilharemos as terras devolutas, sem dono – o animal híbrido fez uma pausa e olhou para a plateia. Tinha consciência de que a fala de radialista era sua melhor ferramenta; mastigava as palavras, burilava-as, tornava-as uma mentira convincente para ele mesmo. Treinara a exaustão o falar com fluência, flexionando os verbos e os pronomes corretamente. 

À mesa, à frente e à direita do senador, o bilionário mineiro Boca Mole, parecia beber as palavras sopradas pelo paquiderme. Boca segurava impecável lenço de linho branco para limpar a baba que teimava em escapulir entre os lábios frouxos; às vezes, lambia os beiços arroxeados com uma língua de boi. Comentava-se que tinha uma ferramenta tão poderosa quanto a língua, e que era mais perigoso, nesse quesito, do que o senador, pois não deixava escapar nem o diabo de saia. 

Fizera fortuna durante a construção de Brasília, afinal, sempre estivera certo de que o DF estava destinado aos mineiros; não fora um mineiro que demarcara o Distrito Federal e construíra Brasília? E não se tirou sequer um naco de Minas Gerais; o DF foi arrancado, ou melhor, implantado, em Goiás. O senador seria apenas mais uma catapulta para seus negócios, rumo a se tornar o homem mais rico do país. Aquele porco catapultaria seus negócios de tal maneira que lhe dava a perspectiva de se tornar até o homem mais rico do mundo. 

À esquerda do senador, o rei do transporte público, goiano, fumava um Cohiba. Mandara fazer implante de cabelos e pintava-os, juntamente com os que lhe restavam, tão negros que resvalavam para um tom azulado. Os cabelos ralos e manchas escuras que lhe malhavam o rosto encovado lhe davam aspecto sinistro. Comentava-se que teria mandado matar o pé de pano que dava à mulher dele o que ele não podia mais proporcionar a uma potra meio século mais jovem. 

Entre os dois, flutuava a deputada, mineira, dona de uma das maiores empresas de segurança e limpeza do país. Lembrava Jéssica Rabbit; toda vez que Boca Mole olhava para ela a baba teimava em sair dos lábios em prolapso. Seguramente, um bom naco do país pertencia àquele quarteto.

No outro lado do salão, perto da porta principal, o segurança e motorista do senador, homem de sua estrita confiança, estava sentado numa poltrona, imóvel como uma estátua, de óculos escuros e empacotado em um terno preto de nylon. Tinha cerca de 50 anos e lembrava todinho um búfalo com garras de leão. Estava ali, imóvel como uma estátua, mas era capaz de ouvir até sussurros e podia enxergar através das paredes, por meio do faro. Dizia-se descendente de Lampião e havia o boato de que estripara uma família inteira em Pernambuco, antes de migrar para Brasília, onde foi acolhido pelo senador. 

Chegou a Brasília no fim dos anos 1980, atraído pelo lote, pão, leite, hospital e escola que o governador Joaquim Roriz estava oferecendo para migrantes de todo o Brasil, que formariam seu curral eleitoral ao transformar o Distrito Federal em Estado. Na época, o senador ainda não era senador; tinha um devezenquandário. Quando viu Lampião reconheceu de imediato que aquele gigante tinha potencial para se tornar seu segurança e motorista, e, se precisasse, matador. 

Acolheu o búfalo, que viera com mulher e um casal de crianças, e providenciou-lhe aula de volante e um curso especial em uma empresa de segurança, onde Lampião se aprimorou zelosamente em artes marciais e armas brancas – principalmente katana, pois um de seus instrutores era mestre em espada japonesa –, e de fogo, além do curso de Direito no Centro Universitário de Brasília (Ceub). 

Nessa época, o sócio do futuro senador no devezenquandário sacou o que estava acontecendo e publicou uma matéria profética sobre o inchaço que Brasília viria a sofrer. Foi um tiro no pé; ou melhor, no timo, o que se tornou a marca registrada de Lampião. 

– Para isso, meus irmãos, para que tomemos conta deste país, para que este país seja completamente nosso, para que possamos fazer o que quisermos no nosso país, para que nos tornemos intocáveis no nosso país, precisamos tomar posse, de fato, dele; e eu sou o homem que vai nos proporcionar essa chegada total ao poder. 

Fez uma pausa, e continuou. 

– Mas, para que nos tornemos – fez outra pausa –, para que nos tornemos onipotentes, sim, onipotentes, precisamos acabar com ele, vocês sabem quem, e fortalecer o nosso grande comandante. Para isso, senhores, precisamos depositar, cada um de nós, um milhão de reais na conta do nosso clube, dinheiro que será usado, desde agora, para derrubar... vocês sabem quem, para extirpar da Humanidade a ameaça que paira na Esplanada dos Ministérios, e que deveria ter sido arrastado para o inferno, mas que sobreviveu graças à incompetência de terceiros. 

Fez de novo uma pausa. 

– Também precisamos, desde agora, planejar a campanha vitoriosa e eleger nosso líder, além de mim, e o máximo de deputados e senadores. Aqui está o número da conta em que deverão depositar o dinheiro – o senador passou um papel com as anotações para cada um deles. E voltou a falar. 

– É claro que, assim como nós, há, no Brasil inteiro, alguns líderes, homens de bem, trabalhando para recolocarmos nosso grande chefão de volta de onde ele nunca deveria ter saído; o trabalho principal ficará a cargo da quase uma dúzia de aves de rapina que pousam na Praça dos Três Poderes. Nessas alturas dos acontecimentos, o palhaço não será eliminado fisicamente, mas desmoralizado e, mais para a frente, apodrecerá na prisão. Morrerá pelo desgaste, e levará consigo seus filhotes para o inferno. 

Silêncio. 

– E as forças...? Você sabe... – Jessica Rabbit perguntou. 

– Desde 1985 que não querem se meter na vida política do país – o senador respondeu, e, baixando a voz. – Não podemos perder a oportunidade de aumentar nossa força de pressão; temos que devolver o Palácio do Planalto ao nove dedos, de onde ele nunca deveria ter saído. Por isso, precisamos ser generosos, porque temos que tomar conta do Congresso Nacional e de aparelhar todos os poderes do nosso querido Brasil. Para isso, será necessário muito dinheiro, desde agora. Mas esse dinheiro será multiplicado e restituído. Porém o melhor de tudo, meus amigos, meus sócios, membros diletos deste clube exclusivíssimo, é que nós é que faremos e aplicaremos a lei, e perpetuaremos isso, indefinidamente, por meio dos nossos descendentes, como numa dinastia. 

Seguiram-se uns seis segundos de silêncio, rompido por aplausos entusiasmados. 

– Criaremos a Bolsa Futuro, de um terço do salário-mínimo, para meu curral eleitoral. Não esqueçamos a esperteza de Roriz, que criou, e cultivou, durante seu reinado, um curral eleitoral fiel, dando lote, pão, leite e restaurante boca-livre; criou o Legislativo e se perpetuou governador por duas décadas. E não esqueçamos da Bolsa Família e do aparelhamento do Estado. O Brasil é rico, muito, muito rico, e homens, e mulheres, como nós, de visão, precisamos tomar conta desta imensa riqueza. 

Mais aplausos, tão entusiasmados que fez Maurício Virgulino da Silva olhar, rapidamente, para os homens e a mulher reunidos em torno da imponente mesa. 

O senador havia se levantado para pegar uma garrafa de licor de jenipapo, maturado em cachaça Havana. Jessica Rabbit mexera-se, expondo ainda mais o colo e as coxas, o que fez Boca Mole se engasgar. O czar goiano parecia fazer contas mentalmente; era quase audível o tilintar que saía da sua boca trancada, quase um bico. Sonhava com o futuro, uma Mônaco no Planalto, com cassinos cheios de magníficas goianas e mineiras de biquini servindo champagne e licores mineiros e do Cerrado. 

– Governador, pode contar comigo. Hoje mesmo vou transferir um milhão de reais para a conta – disse Jéssica Rabbit, com voz dengosa, sonhando em ampliar sua fatia de segurança privada e a recolha de lixo em todo o país. Comentava-se que ela matara pessoalmente o velhinho milionário de quem cuidou como enfermeira e depois como esposa, e de quem herdou uma fábula, a qual multiplicou após se tornar deputada. 

O murídeo-suíno riu. Rindo, a cara de rato se transformava em um focinho de hiena. 

Boca Mole lambeu os beiços. 

– Assim como nossa estimada, nossa querida colega, nossa Jéssica Rabbit, vou também depositar, hoje mesmo, um milhão de reais na conta. E pode contar comigo para o que der e vier – disse Boca, lambendo os beiços novamente. 

Jéssica Rabbit se mexeu na cadeira e lançou o olhar dengoso para Boca. Dessa vez a baba escorreu, mas Boca limpou-a logo. 

O escaveirado czar goiano disse, embora com dificuldade, que também disporia de um milhão de reais. 

– E o projeto de lei em tramitação no Congresso legalizando o jogo de azar tem chance de ser aprovado? – perguntou. 

– Está tramitando, mas no momento todo mundo no Congresso está unido para darmos fim ao Messias – disse o senador, degustando as palavras. – Acho que assim que dermos cabo dele voltaremos a mexer com o projeto de lei da jogatina. 

– Já pensaram Brasília transformada numa Mônaco, numa Las Vegas do Hemisfério Sul, e nós controlando tudo? Não vai ter banco que suporte guardar toda a grana que ganharmos! – o czar exclamou, entusiasmado. 

Jéssica Rabbit olhou cobiçosa para o zumbi. 

– Ah! Eu sonho com isso! Sonho com a segurança dos cassinos! Vou mandar uma equipe inteira para Las Vegas para aprender como se faz segurança de cassino! – disse Rabbit, também entusiasmada, fazendo caras e bocas e se mexendo como uma cobra; Boca Mole não perdia nada. 

– E eu vou comandar a construção do trem-bala Brasília-Goiânia; vamos fazer desse polo Brasília-Goiânia o mais sensacional do país! – exclamou o czar. Estava tão emocionado que viram um pouquinho de rubor no seu rosto amarelo e encarquilhado. – E também tem uma coisa muito importante, que é o asfaltamento da cidade. Comecei a produzir um asfalto de primeira categoria em Goiás – ouvia-se o tilintar de moeda sempre que ele falava. 

– E será uma Las Vegas com cultura – interrompeu-o Boca Mole. – Vamos restaurar o Teatro Nacional e trazer para cá as maiores celebridades do mundo, e, também, vou ganhar a licitação para recuperar o Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Quero ainda o estádio Mané Garrincha para promover os maiores jogos do mundo, principalmente quando a jogatina estiver a todo gás. 

– Vou facilitar tudo; é claro que teremos uma taxa... – disse o senador. 

– É claro! Vamos fazer do Brasil o maior rendez vous do planeta – disse Boca Mole, dando uma gargalhada que contagiou os outros três, e até Lampião, que havia escutado as palavras de Boca Mole; sua boca era mole, mas o tom de voz, alto. 

Jessica Rabbit ficou sonhadora. Imaginava-se em uma Brasília ainda mais fantasiosa do que já é. Descruzou e cruzou as pernas e Boca Mole se engasgou, com a impressão de ter visto a liga das meias dela. Fizera tudo o que julgava possível para obter os favores de Rabbit, e ela, pelo que lhe chegava aos ouvidos, esfregava-se até nas paredes, mas o evitava. Seria por sua boca mole? Ora, mas a boca mole era o resultado de trabalhar tão bem com a língua de boi; isso, de certa forma, acabou desencadeando aquela produção desenfreada de saliva. 

O senador serviu mais uma rodada de licor de jenipapo. Ele mesmo preparava a bebida. Gostava também de cozinhar, e era bom de cozinha. Vendo o alegre grupo, o senador sonhava: “Afinal, Lula não será solto e voltará à Presidência? Como eu não poderia sucedê-lo? Ora, sou mestre em Política Internacional! Só terei que conquistar o eleitorado de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Região Sul. O Nordeste será fácil, e a Amazônia é canja! E já sei como vou ganhar São Paulo: é só prometer aos paulistanos que a cidade deles não irá mais para o fundo, no verão, e, aos capiaus do interior, bolsas-família, escola, universidade e até bolsa-puteiro, se for preciso; aos capiaus mineiros basta prometer bolsa-queijo; aos cariocas, e fluminenses, prometerei bolsa-feijoada e bolsa-samba (sorriu), e aos caipiras do Sul, bolsa-linguiça, charque, chimarrão, carne, chucrute, e tudo o que é porcaria da Europa”. 

– Governador! – disse Jéssica Rabbit, acordando o yorkshire. – Quero aproveitar para lhe pedir, usando sua influência, que refresquem lá no meu hotel. As meninas não estão podendo trabalhar direito; afinal, elas atendem senadores e deputados. 

– Pode deixar, minha filha! O meu hotel, o do Setor Hoteleiro Sul, também está sofrendo esse ataque. 

Jessica Rabbit se mexeu na cadeira de tal maneira que Boca Mole melou a cueca. Não resistiu e pôs sua mão sobre a mão de Jéssica. 

– Você está certa, princesa, não estão deixando a gente trabalhar; parece que mobilizaram toda a fiscalização em cima de mim também – disse Boca. 

– Tive que aumentar, substancialmente, a propina destinada a vários setores da administração pública da área federal – Zumbi se meteu na conversa. Referia-se ao jogo de azar que explorava principalmente em Goiânia. 

Jéssica deixou a mão de Boca Mole sobre a dela; com a outra mão, o asno limpou um ponto de baba no canto da boca. A deputada distrital mexeu-se, virando-se para um e para outro, exibindo parte generosa do colo. Boca Mole tirou a mão de sobre a dela, arrumou-se melhor na poltrona, passou o lenço nos beiços e guardou-o. Se não soubesse o que é autodisciplina não seria um dos homens mais ricos do país, e, depois, poderia ter quem ele quisesse; podia pagar por qualquer um; afinal, todo mundo tem um preço. Apesar de que Jéssica Rabbit tirava-o do prumo. Misturem Brigitte Bardot e Marilyn Monroe e terão Jéssica Rabbit, na cabeça do bilionário; melhor ainda, era a própria Jéssica Rabbit, a do desenho. 

O telefone celular do senador começou a vibrar. Ele pediu que continuassem à vontade enquanto atendia à chamada, explicando que aguardava por ela. Atendeu-a indo até uma poltrona no amplo salão, ricamente decorado. Conversou durante uns dois minutos e retornou à mesa. 

– Mais uma rodada de licor de jenipapo? – perguntou.

Os três olharam-se. Eram 13 horas em ponto. 

– Eu já estou é com fome – disse Boca Mole, com água na boca. 

– Por que não almoçamos aqui? – Patarrão convidou. 

– Estão me esperando em casa – disse Boca Mole. 

– Preciso almoçar em casa também – disse Jéssica Rabitt. 

Zumbi pareceu avaliar um pouco. Não perdia uma boca livre. 

– Não! Eu, realmente, preciso ir! – disse, quase em um lamento. 

– Então está tudo certo! Estamos entendidos! – disse o senador. 

– Sim! Hoje à tarde o dinheiro estará na conta que você me deu! – disse Boca Mole. 

– É, hoje à tarde todos nós vamos fazer a transferência! – disse Jéssica Rabbit, levantando-se. Realmente, era de parar o trânsito. 

Todos se levantaram, inclusive Lampião, e Patarrão conduziu os visitantes até a porta. 

Quando saíam, Jessica atrasou-se e puxou o senador de lado. 

– Descobri um mimo para você que vai deixar você babando – cochichou no ouvido do porco. – Você terá a vitela mais linda que existe para realizar seus sonhos mais ousados. 

O senador salivou. 

Sozinho, agora, ligou para a pessoa com quem havia falado instantes atrás. Era sua mulher, que lhe fazia marcação cerrada; tornara-se paranoica e Jéssica Rabbit era seu maior pesadelo. Desenvolvera olfato quase canino e cheirava as roupas do seu fogoso marido, principalmente a cueca, em busca de indícios que pudessem justificar sua paranoia, mas era ela a investigada, pois o senador procurava se antecipar a cada passo da sua esposa, criando, para isso, um verdadeiro departamento de inteligência dentro da sua própria casa. Ouviu a voz. Uma sombra de desgosto perpassou-lhe o focinho. A megera, como ele a chamava mentalmente, era seu alicerce e terror. Herdeira de uma das maiores fortunas do país, conheceram-se quando ela começou a tomar aulas de voo quando ele era instrutor; não demorou para que começassem a transar a bordo do monomotor. Casaram-se e ela começou a bancar o futuro senador, de quem se tornara acionista majoritária em quase todos os investimentos do marido. Engordara muito depois que casou e isso a tornou ainda mais alarmada. 

O senador entrou no seu carrão às 13h15. Minutos depois cruzava o Lago pela Ponte JK, na límpida tarde brasiliense. 

Conto baseado no romance O CLUBE DOS ONIPOTENTES

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A IDENTIDADE CARIOCA desvenda a maior lenda urbana do Rio de Janeiro: o fabuloso Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo

ChatGPT 

BRASÍLIA, 15 DE JULHO DE 2026 – A IDENTIDADE CARIOCA é um romance que ultrapassa as convenções do thriller histórico ao transformar uma investigação policial em instrumento de reflexão sobre a formação cultural e política do Brasil. Ambientado no Rio de Janeiro, o romance parte de uma das mais fascinantes lendas urbanas da cidade — o suposto Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo — para construir uma narrativa que combina mistério, ação, pesquisa histórica e ensaio sobre a identidade nacional.

O protagonista, o jornalista Reinaldo Loyola de Carmela, conduz uma investigação que o leva pelos subterrâneos físicos e simbólicos da antiga capital do país, articulando passado e presente em uma trama de crescente tensão. 

O grande mérito do romance está na maneira como a busca pelo tesouro funciona como metáfora da própria procura pela identidade brasileira. O objeto da investigação nunca é apenas material; representa a memória histórica, as camadas de poder e os processos culturais que moldaram o imaginário nacional. O Rio de Janeiro deixa de ser simples cenário para converter-se em personagem central da narrativa, revelando-se um espaço onde arquitetura, política, literatura, religião e cultura popular se entrelaçam. 

Ray Cunha demonstra domínio do ritmo narrativo típico do romance de suspense. A sucessão de descobertas, documentos, pistas e enigmas mantém o interesse do leitor, enquanto a alternância entre ação e reflexão impede que a narrativa se transforme em mero tratado histórico. Há equilíbrio entre o entretenimento proporcionado pelo thriller e a ambição intelectual do romance de ideias. 

Outro aspecto digno de destaque é a reconstrução histórica. O autor percorre diferentes períodos da história carioca, desde a ocupação colonial até a consolidação da cidade como centro político e cultural do país. Personagens históricos e figuras da cultura brasileira aparecem integrados ao universo ficcional, produzindo um diálogo permanente entre realidade e invenção. 

Essa técnica aproxima o romance da tradição inaugurada por Umberto Eco em O Nome da Rosa ou por Arturo Pérez-Reverte em seus romances históricos, nos quais a investigação constitui um caminho para compreender processos históricos mais amplos.

No plano estilístico, a linguagem é direta, clara e jornalística, característica que favorece a fluidez da leitura. 

O texto evita experimentalismos formais e privilegia a comunicação eficiente das ideias. Essa opção pode ser vista simultaneamente como virtude e limitação: virtude porque amplia o alcance da obra junto ao público geral; limitação porque alguns leitores poderão desejar maior elaboração poética ou complexidade psicológica em determinados personagens. 

A construção do protagonista também merece atenção. Reinaldo Loyola de Carmela não é um herói infalível, mas um investigador movido pela curiosidade intelectual. Seu percurso reproduz o do próprio leitor: cada descoberta amplia não apenas o mistério da trama, mas também a compreensão sobre o processo histórico que deu origem à identidade carioca e, por extensão, à identidade brasileira. 

Do ponto de vista temático, A IDENTIDADE CARIOCA insere-se na tradição do romance político brasileiro, embora o faça por uma via pouco comum. Em vez de concentrar sua crítica em governos ou acontecimentos específicos, procura discutir como narrativas históricas, símbolos urbanos e instituições culturais participam da construção das identidades coletivas. O romance propõe que toda identidade nacional resulta de disputas de memória, interpretação e poder, transformando a cidade do Rio de Janeiro em laboratório privilegiado dessas tensões. 

Naturalmente, essa perspectiva pode suscitar divergências. A interpretação histórica apresentada pelo romance dialoga com determinadas leituras do passado brasileiro e contesta outras, conferindo à obra um caráter assumidamente interpretativo. Em vez de buscar neutralidade historiográfica, o autor assume uma posição crítica, convidando o leitor a confrontar diferentes versões da história nacional. Independentemente da concordância com suas premissas, essa postura confere vigor ao romance, pois faz da ficção um espaço de debate intelectual. 

No conjunto da obra de Ray Cunha, A IDENTIDADE CARIOCA representa um dos seus projetos literários mais ambiciosos. Reúne elementos presentes em romances anteriores — investigação, história, geopolítica e reflexão cultural — e os organiza numa estrutura narrativa consistente, capaz de dialogar tanto com o romance policial quanto com o romance histórico e o romance de ideias. 

Em síntese, A IDENTIDADE CARIOCA destaca-se como um thriller histórico de elevada densidade temática, no qual o suspense funciona como porta de entrada para uma reflexão sobre memória, cultura e identidade nacional. É uma obra destinada ao leitor que aprecia narrativas de investigação, mas que também busca compreender como a literatura pode iluminar os mecanismos pelos quais uma sociedade constrói a imagem de si mesma. 

Seu principal mérito reside justamente nessa rara combinação entre entretenimento, pesquisa histórica e reflexão crítica, fazendo do romance uma contribuição singular para a ficção brasileira contemporânea.

A IDENTIDADE CARIOCA está à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Além de Ray Cunha, o que há? Amazônia, ainda?

Ray Cunha: Ao publicar Muito Além de Mim aconteceu uma coisa engraçada. Uma amiga minha julgou que se tratava de memórias e se solidarizou comigo. Então, expliquei a ela que se trata de um conto 

Pelo ChatGTP 

BRASÍLIA, 13 DE JULHO DE 2026 – O conto Muito Além de Mim, incluído no livro AMAZÔNIA, de Ray Cunha, é uma das narrativas mais densas e autobiograficamente sugestivas do autor. Embora apresente-se como ficção em primeira pessoa, o texto dissolve deliberadamente as fronteiras entre memória, confissão, romance de formação (Bildungsroman) e reflexão sobre o próprio fazer literário. O resultado é uma narrativa de extraordinária intensidade existencial, cuja verdadeira matéria não é a miséria social nem a boemia amazônica, mas o nascimento de um escritor. 

Desde a primeira linha, o narrador anuncia seu eixo temático: “Tenho tentado escrever ficção”. Esse enunciado aparentemente simples organiza toda a narrativa. O casamento fracassado, a pobreza extrema, a vida na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup), os personagens grotescos e as recordações da juventude são menos acontecimentos do que degraus de uma iniciação artística. 

Ray Cunha constrói um narrador que jamais pede piedade. Ao contrário, observa a própria desgraça com uma lucidez quase clínica. Em poucas páginas ele perde emprego, casamento, conforto e estabilidade, mas não sucumbe ao sentimentalismo. Há uma secura narrativa que lembra certos momentos de Hemingway, autor citado explicitamente no final do conto, embora filtrada pela exuberância amazônica e pela oralidade brasileira. 

O episódio da separação sintetiza perfeitamente essa postura estética. Ao encontrar a esposa na cama com outro homem, o narrador não reage com violência nem melodrama. Recolhe seus pertences e decide partir. A resposta da mulher — perguntando simplesmente se ele buscara suas roupas na lavanderia — transforma a tragédia em ironia cruel. O grotesco nasce justamente da absoluta indiferença diante daquilo que convencionalmente seria um grande drama humano. 

É precisamente na Ceup que ocorre a verdadeira transformação do protagonista. A residência estudantil aparece quase como um purgatório dantesco: personagens extravagantes, quartos imundos, loucura, alcoolismo, miséria, suicídio, violência, doenças e decadência moral convivem diariamente. No entanto, para o narrador, tudo isso constitui matéria-prima da literatura. 

Os inúmeros personagens — Rei Momo, Ribamar, Duende, Mão de Sucuri, Punheteiro, Distribuidor de Esperma, Padre, Sequoia — dificilmente podem ser entendidos apenas como indivíduos. Eles compõem um vasto painel humano, quase carnavalesco, lembrando em certos aspectos o universo de Rabelais, de Nelson Rodrigues ou mesmo de Lima Barreto, onde o grotesco revela dimensões profundas da condição humana. 

Nesse aspecto, o conto aproxima-se da tradição picaresca. O narrador percorre um mundo marginal povoado por figuras excêntricas, observando tudo com humor ácido e inteligência crítica. Mas Ray Cunha vai além da simples sátira social. Cada personagem representa uma possibilidade de fracasso existencial da qual o narrador procura escapar por meio da literatura.

Essa talvez seja a maior qualidade do conto: transformar a criação artística em experiência espiritual. 

Há um momento central em que o narrador declara: “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa”. Essa frase funciona como verdadeira profissão de fé estética. Escrever deixa de ser profissão ou passatempo para tornar-se destino. A literatura aparece como única forma possível de organizar o caos da existência. 

Ao longo da narrativa surgem diversas reflexões sobre disciplina, leitura, solidão e concentração. O protagonista estabelece para si uma rotina quase monástica: escrever diariamente, ler atentamente, observar as pessoas, meditar, rezar, experimentar o mundo com todos os sentidos. É uma concepção profundamente artesanal da literatura, distante tanto da inspiração romântica quanto da produção industrial da escrita. 

Outro aspecto notável é a relação entre espaço e identidade. A Amazônia de Ray Cunha não aparece como cenário exótico nem como floresta mítica. Surge através de Belém, do Ver-o-Peso, das ruas, dos bares, da universidade, dos bairros populares, da comida regional, da farinha d'água, do açaí, do tacacá, das pequenas experiências cotidianas. Trata-se de uma Amazônia urbana, cultural e profundamente humana. 

A linguagem acompanha essa proposta estética. O texto alterna registros coloquiais, filosóficos e poéticos sem perder unidade. Há momentos de brutalidade verbal convivendo com passagens de delicada introspecção. A narração ora assume ritmo veloz, quase cinematográfico, ora desacelera para registrar reflexões sobre tempo, memória e criação. 

Também chama atenção a quantidade de referências culturais. Fellini, Hemingway, Mozart, Krishnamurti e Gabriel García Márquez aparecem naturalmente integrados ao universo do narrador, revelando um escritor profundamente cosmopolita, apesar de enraizado na Amazônia. Não há ostentação erudita; essas referências fazem parte da formação intelectual do protagonista. 

O trecho final sintetiza magistralmente o sentido da narrativa. Após cogitar o suicídio e recordar a traição da esposa, o narrador descobre que seu verdadeiro desforço não será contra pessoas, mas contra o anonimato. Conseguir emprego em O Liberal representa apenas uma etapa; seu objetivo permanece escrever um romance capaz de alcançar grandeza universal. O sonho do iate navegando pela Amazônia e pelo Caribe simboliza a liberdade conquistada pela criação artística. 

Naturalmente, o conto também apresenta aspectos discutíveis. A representação feminina é construída quase exclusivamente pelo olhar masculino do narrador, privilegiando o ressentimento decorrente da traição. Além disso, alguns episódios são narrados com uma crueza que pode causar desconforto em determinados leitores. Contudo, essas escolhas parecem coerentes com a voz narrativa adotada e com o projeto estético do texto, que evita idealizações e busca expor a realidade em sua dimensão mais áspera. 

No conjunto da obra de Ray Cunha, Muito Além de Mim ocupa posição singular por condensar diversos elementos recorrentes de sua ficção: a Amazônia urbana, a observação psicológica, a crítica aos ambientes institucionais, a busca da liberdade individual e, sobretudo, a convicção de que a literatura constitui uma forma de transcendência. O título revela-se profundamente significativo: ir “muito além de mim” significa ultrapassar a experiência pessoal para transformá-la em arte. 

Mais do que um relato de juventude ou um romance de formação condensado em conto, Muito Além de Mim é uma meditação sobre o nascimento da vocação literária. A pobreza, a humilhação, o abandono e a convivência com figuras marginais deixam de ser simples episódios biográficos para converter-se em matéria estética. Nesse sentido, Ray Cunha demonstra compreender uma das verdades fundamentais da grande literatura: o escritor não vence o sofrimento eliminando-o, mas transformando-o em linguagem. 

Por essa capacidade de fundir autobiografia, reflexão filosófica, observação social e elaboração literária numa narrativa de notável vigor, Muito Além de Mim destaca-se como um dos contos mais maduros de AMAZÔNIA e uma das expressões mais consistentes da ficção de Ray Cunha. Nele, a literatura deixa de ser apenas tema para tornar-se destino — não como fuga da realidade, mas como a forma mais profunda de habitá-la. 

Muito Além de Mim 

RAY CUNHA

TENHO TENTADO ESCREVER FICÇÃO. A gente não precisa de muito para produzir. Basta comer o suficiente para não adoecer. Vinha tendo bem mais que isso, mas tudo acabou como num passe de mágica. No mesmo dia, perdi emprego, mulher, casa, comida e roupa lavada. Conheci Celina Madeira Machado Silva e Silva no Bar do Parque, defronte ao Hotel Hilton Belém, na Praça da República. Ela estava na companhia de uma tipa grande como uma elefanta e de uma outra que era toda uma enguia. Naquela época, andei publicando umas resenhas sobre cinema em O Liberal e Celina era cinéfila. O papo foi longe. Ela me convidou para ir à sua casa no dia seguinte. Morava em um casarão em Nazaré. O pai, com o estômago estourando de câncer, vivia recluso esperando a hora de bater as botas. Para não me estender muito, o caso é o seguinte: Celina e eu nos casamos dias depois. Eu era seu quarto marido. Celina andara à procura de um pai camarada. A mãe de Celina, uma índia que seu pai comprara em Santarém, fora escravizada a vida toda, mas não morrera sem gerar a filha rebelde. Ao chegar de Portugal, o pai de Celina começou como padeiro em Belém. Anos de economia, comendo restos estragados de frutas e se vestindo com duas mudas de roupa, fizeram dele um magnata do pão. Celina vivia esbanjando a fortuna e batendo perna com suas amigas aliá e peixe-elétrico. Era a cadela no trio. Pôs-me um par de cornos de alce. Mas nosso jogo era tácito. Ela me tirara da sarjeta e me usava como atleta sexual. Naquela manhã, peguei o carro que Celina me dera e fui para o trabalho, uma revista picareta que só me pagava com vales, embora, antes de conhecer Celina, era lá que eu repousava a carcaça, em um quartinho decrépito, nos fundos do prédio. Cheguei a tempo de ver o pessoal da Justiça do Trabalho levando tudo. Depois soube que o editor tinha vencido uma causa trabalhista contra o dono da empresa. Voltei para casa. Flagrei minha mulher gemendo, empalada no vergalho do jardineiro em nossa santa cama. Não quis fazer drama. Sentia-me vulnerável e cansado. Fui à cozinha beber água. “A vida é um jogo perdido; o melhor que podemos fazer é jogar bem” – pensei. “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa. A razão da minha vida é escrever ficção. Se não escrevo, sinto-me vazio, despencando na fossa, no nada. Por isso, necessito criar. E quando estou no lugar ideal nada pode me atingir. Nada! Eu sempre soube que esse casamento é apenas uma passagem de chuva.” Passado algum tempo voltei ao quarto, peguei minhas coisas. Na sala, encontrei Celina.

  – Estou indo embora – disse-lhe. Quase não acreditei no que ela respondeu.

   – Tu pegaste a roupa na lavanderia? – eram uns casacos que ela usava quando viajava e que eu levara à lavanderia.

   Nessas alturas, tinha feito novas amizades e um amigo, um verdadeiro irmão, me acolheu na casa dele. Minha passagem pela casa de Celina proporcionou-me a oportunidade de me preparar para o vestibular. Ela pagara o cursinho e eu consegui entrar na Universidade Federal do Pará, para fazer o curso de jornalismo. Foi desse modo que obtive uma vaga na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup).

            Naquela manhã lamacenta de abril a Ceup dormia ainda, por trás do alto muro na Rua São Francisco, bairro da Campina. Era um conjunto de três prédios: a Casa Nova, já com sinais de decrepitude; a Vila Sapo, com quatro quartos lado a lado; e a Casa Velha, um casarão do século dezenove, em ruínas.

            – Gostaria de falar com o presidente – disse a um ancião escaveirado que surgiu no vão da porta, imaterial como um fantasma.

            Fui conduzido a um quarto no terceiro andar da Casa Nova. Bati na porta. Apareceram dois olhos negros, famintos. Pertencia a um camponês de cabeça excessivamente chata. Estendi-lhe a carta da reitoria da Universidade Federal do Pará. Ele a leu.

            – Meu nome é Ribamar – disse, e me convidou para entrar no quarto.

            O quarto fedia a mofo, roupa suja e gordura. Encostada à parede havia uma bicicleta toda enfeitada. “Parece chapéu de vaqueiro nordestino” – pensei.

            – Você vai para o quarto do Rei Momo – disse o presidente.

            O quarto do Rei Momo ficava na Vila Sapo. Era o primeiro de quem ia da Casa Nova para a Casa Velha. Estava fechado. Ribamar bateu na porta. Ouviu-se movimento lá dentro e depois a porta foi aberta. Vi uma aparição de olhos esbugalhados, um homem de meia idade, barrigudo e assustado.

            – Este aqui é o João. Ele vai morar aí – disse o presidente.

       – Aqui? – Rei Momo não acreditou no que ouviu. Desde que viera de Santarém, há dez anos, não dividia o quarto. Agora, o subversivo do Piauí vinha com aquela conversa. – Um momento – disse Rei Momo, fechando a porta. Daí a alguns minutos reapareceu. Vestira uma camisa e escovara os cabelos. – Podem entrar – convidou-nos.

          O fedor de mofo era sufocante. Em um dos lados do quarto havia uma cama com um bom colchão, com trapos espalhados sobre ele. No outro lado, encostada à parede, vi uma dessas camas de armar e desarmar. Na parede dos fundos erguia-se uma respeitável pilha de livros, ao lado de um guarda-roupa em ruínas, e no centro do quarto jazia uma mesinha atulhada de tudo quando se possa imaginar. Rei Momo sentara-se sobre a cama e o presidente e eu ficamos em pé.

            – Eu sempre morei sozinho – disse Rei Momo, zangado.

           – Isto aqui está precisando de uma limpeza. Vou convocar um mutirão para pôr em ordem este quarto – disse o presidente, que era recém-empossado. Eu soube mais tarde que o presidente anterior permanecera no cargo durante dez anos.

             Rei Momo olhou-o apavorado.

          – Não será preciso um mutirão. Nós dois nos daremos bem – eu disse, estendendo a mão para Rei Momo. Ele pareceu não ter visto meu gesto. – Parece-me que ambos gostamos de Fellini – apontei para uma lombada que se salientava na pilha de livros. – E não te preocupes com barulho; gosto também de silêncio.

            Nasci em 22 de abril de 1939. Estamos em 22 de abril de 1972. Tenho, portanto, 33 anos de idade. Sinto que já comecei a descer o morro da vida. Para um escritor permanecer no embalo dos 21 anos só com muita dedicação – dedicação religiosa – a tudo o que diz respeito à criação literária, como: disciplina espartana e trabalho duro como um assalto de boxe, sem trégua, contínuo, árduo e nunca desestimulado. E é assim que venho fazendo na Ceup, aproveitando essa oportunidade que Deus me deu. O fim do meu casamento serviu para que descobrisse o quanto realmente as coisas valem. A Ceup foi o gatilho que eu precisava disparar para me tornar escritor e, antes dela, Celina.

            As melhores horas eram as da madrugada, quando o silêncio se impunha à horda piolhenta que ali se escondia. Às vezes, deixava-me sentar em frente à televisão para ver um resto de filme, ou simplesmente ficava ali, no hall de entrada da Casa Nova, mais pela claridade das inúmeras lâmpadas fluorescentes. Nas férias, quando todos iam para suas cidades natais e a Ceup ficava quase abandonada, eu varava as noites escrevendo, absolutamente fiel a mim mesmo. Escrevia todos os dias, mesmo que fosse por alguns minutos apenas. Se não dava, tentava no dia seguinte. E dormia bastante. Lia tudo e atentamente. Rezava, meditava, via, ouvia, sentia, cheirava, degustava, bebia, comia, vagabundava, batia papo e escrevia cartas. Escrever não me saciava nunca. Atingia picos de concentração, lucidez e produção que pareciam a embriaguez do primeiro gim fizz. Vivia o agora e o agora, o momento mesmo da vida. Nada de nostalgia, nada de remorso, o passado era feito do que havia de melhor; nada de sonho, pois a realidade proporcionava prazer intenso; nada de preocupação, pois não havia futuro; nada de raivas, pois a raiva, acionada, só a morte pode detê-la, é tão devastadora que atinge tudo ao seu redor, incluindo objeto e sujeito; nada de reclamações; nada de se meter na vida dos outros, nem deixar que os outros se metessem na minha vida. Eu era, apenas, um mero observador da realidade, embora, sempre que achasse necessário, interviesse na realidade. Hoje, sei que não se pode intervir na realidade, pois a realidade é. Nossa vida é apenas o caminho que leva à realidade. Até as mulheres se tornaram para mim, naquela época, abstrações, e somente pensando nelas é que ousava sonhar. Sonhava com uma companheira, amiga, amante, o colo onde repousava minha cabeça, ainda dolorida devido aos cornos. A luz do seu amor me conduzindo naquelas encruzilhadas da vida mergulhadas nas trevas, guiando-me pela mão, com segurança, emergindo comigo na claridade e na trilha segura. Nos meus mergulhos interiores eu me via também como protetor das crianças, gentil e caridoso, senhor de mim, poderoso como um anjo, e frágil, pois me via pedindo perdão a todos quanto ofendi, ou causei mal.

            Geralmente me alimentava de pão dormido, que o padeiro da esquina me arranjava sempre. Fiz amizade também com o açougueiro, que me dava ossos ainda munidos de excelentes nacos de carne, que eu cozinhava e comia com a boa farinha d’água que minha família me mandava de Oiapoque, cidade do Território Federal do Amapá. Às vezes, eu faturava alguma coisa na mídia. Aí, almoçava no Ver-O-Peso. Meio litro de pirão de açaí com dourada, e adormecia nocauteado pela canícula, até o anoitecer, quando tomava banho, vestia a melhor muda de roupa de que dispunha e ia para o Cosa Nostra bater papo com o barman, meu amigo. Mas, a maior parte do tempo, vivia a minha vida de modo quase recluso, quase sem participar da agitação que era sempre a Ceup. Minha participação no dia a dia da casa era mais a de expectador. Os acontecimentos se sucediam como os bancos de uma roda-gigante em movimento. Embora eu não me importasse com eles. Simplesmente não influíam na minha vida. Eu estava ali com um objetivo e até alcançá-lo vivia intensamente minha vida interior. O dia a dia da Ceup não alterava o fluxo do meu rio interior. Mas eu dissecava os protagonistas desses episódios e, às vezes, tomava nota deles. Uma madrugada, acordei com gritos medonhos à porta do quarto. Abri-a e me deparei com uma mulher enrolada em um cobertor imundo, cheio de nódoas de gozos antigos, suplicando que a socorressem. Mão de Sucuri, um vaqueiro, nosso vizinho, havia levado aquela mulher para o quarto dele, onde morava com Punheteiro, que se masturbava a noite inteira enquanto Mão de Sucuri trabalhava nas putas que levava para lá. Naquela noite, Mão de Sucuri, que tinha esse apelido de tanto ordenhar vaca e ficara com uma força descomunal nas mãos, queria que a mulher desse uma chupada nele. Ela ficou com vergonha de fazer aquilo na frente de Punheteiro. Apesar de não se aguentar em pé de tão porre, Mão de Sucuri imobilizou-a na sua rede tão limpa quando o cobertor em que ela havia se envolvido na fuga e lhe ferroou uma dentada na bunda. Depois pô-la nua, a bofetadas, ao relento. Ela conseguira levar o cobertor e ao ver-se ao relento pôs-se a berrar. Mão de Sucuri caiu na rede em coma e Punheteiro batia uma feroz punheta para aquela égua nua que passou roçando seu nariz. Outra madrugada, na Casa Nova, o Doutor, conhecido também como Distribuidor de Esperma, começou a berrar. Ele queria ser cirurgião plástico. Logrou ingressar na universidade após doze vestibulares bem contados. Jamais tomava banho e lembrava um pedaço de sebo. Dizia a todos que vendia esperma para inseminação artificial. Recebia carne seca do Maranhão e guardava-a sobre uma sucata de geladeira. Todo dia tirava dali alguns pedaços, que cozinhava e comia com farinha d’água. Um dia, ratos começaram a brigar sobre a carne seca e um caiu no Distribuidor de Esperma, que acordou com uma ratazana na cara. Em agosto, houve o caso do Padre. Um dia, encontrava-me no salão da Casa Velha. Duende estava encostado à janela. Era meio-dia e o sol dava até para fritar ovo.

            – Não dou uma semana para que o Padre seja levado para o hospício – disse Duende, um goiano vermelho e miúdo, que só usava camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho, mesmo sob o calor de quarenta e cinco graus. Três dias depois, houve um corre-corre na Casa Velha. Apareceram quatro enfermeiros, meteram o Padre numa camisa de força e sumiram. Naquela noite, encontrei-me com Duende e lhe perguntei como é que ele sabia do internamento de Padre.

            – Ele andava de camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho em pleno sol de meio-dia – disse.

            Fui a última pessoa a falar com Duende, que vivia sozinho em um quarto grande da Casa Velha. Como tivesse perdido a chave da porta, entrava no quarto por meio de um buraco na janela, vedado com um pedaço de compensado. Duende desaparecera já há três dias. Naquela manhã, seu Miguer, o faxineiro esquálido, vislumbrou por uma brecha na janela um movimento qualquer no quarto de Duende. Olhou melhor e viu uma ratazana agarrada a uma perna. Apurou o olhar e distinguiu um homem enforcado, com ratazanas aqui e ali no corpo, especialmente na cara. Seu Miguer emitiu um guincho semelhante ao de seus irmãos roedores e deu o alarme. Foi uma perda para Rei Momo, já que Duende costumava manter discussões quilométricas com Rei Momo sobre Khrisnamurt, de quem lera todos os livros. Ironicamente, Khrisnamurt era sua ansiedade.

         Quando eu não estava na Ceup, estava na universidade. Tive uma professora gorda como uma vaca que promovia debates sobre marxismo sem jamais ter lido O Capital. Vivia com uma aluna magrinha, que a gorda agarrava nos corredores da faculdade e lhe aplicava beijos escandalosos. Durante três semestres vi-me perseguido por um professor de técnica de alguma coisa, homossexual, coxo, com uma nádega seca e analfabeto. Um dia, no banheiro, segurei-o pelo cabelo e o fiz beber água do vaso sanitário. Um santo remédio. Outro mestre inesquecível foi um idiota nascido no Piauí, educado em Goiás e doutorado numa dessas universidades perdidas nas estradas dos Estados Unidos. O tipo lecionava uma disciplina chamada Estudos de Problemas Brasileiros. Suas aulas eram, invariavelmente, um elogio às obras faraônicas dos ditadores militares. À noite, livrava-me de tudo aquilo com um bom gole de gim fizz no Cosa Nostra, por conta da casa.

            Rei Momo morreu no Natal daquele derradeiro ano de minha permanência na Ceup. Caiu como um passarinho baleado diante da parede nua do quarto, onde sempre estivera seu tesouro. Rei Momo era um ladrão de livro. Possuía uma pilha de dois mil volumes. Ao mudar-me para o quarto dele tive de colocar Sequoia em ordem. Sequoia chegou a dar uma surra de cinto em Rei Momo. Mas eu ainda não morava na Ceup. Eu era pugilista amador e sempre que podia estava lá com a turma da Joe Louis. Acabei com Sequoia apenas com um tabefe na cara. Ele não revidou. Ficou se cagando de medo. Então, deixou Rei Momo em paz. Eu gostava de conversar com Rei Momo, que levava uma vida de rei, mesmo. Matriculava-se em uma única disciplina na universidade e fazia de conta que estava estudando. Sua família o mantinha ali porque o consideravam retardado mental. Ele não se importava. Recebia uma mesada relativamente gorda. Consumia suas tardes conversando fiado nas bancas de tacacá e com os vigias das redondezas. Pois bem, Sequoia mudou-se. Aproveitou para dar um golpe fatal em Rei Momo. Na madrugada daquele Natal, ao entrar no tugúrio onde nos enterrávamos, Rei Momo encontrou um bilhete pregado com fita Durex na parede nua onde sempre estiveram os livros, a primeira coisa que Rei Momo checava ao entrar no quarto. “Agradecido pelos livros, bicha louca” – dizia o bilhete.

            Vocês sabem como Ernest Hemingway morreu? Segundo Milt Machlin, no livro O Inferno Privado de Hemingway, era cedo da manhã. “Desceu à sala de armas e tirou do armário uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a reverência de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.” Houve um tempo em que pensei matar-me. Possuía – e isto era uma das minhas pequenas riquezas – uma pistola, a PT 58, da Taurus. Se eu quisesse me suicidar como Hemingway teria de pôr a boca do cano no céu da boca, de modo que a bala atravessasse o cérebro. A gente não sente nada. Os que ficassem, logo me esqueceriam. Como minha família é de Oiapoque e muito pobre eu seria enterrado como indigente e, assim, desapareceria sem deixar rastro. Cheguei a cogitar isso na época em que aquela cadela, aquela índia duma figa, galinha do caralho, me empurrou de volta para a sarjeta, depois de quase um ano principesco. Mas agora sou grato a ela. Ajudou bastante. E depois somente nós temos a responsabilidade pelo que passamos. Antes de conhecer Celina, estivera sentado em uma cadeira olhando para uma parede. A sorte é que ouvia Wolfgang Amadus Mozart. Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor. Para além da parede, há um anoitecer azul. Azul escuro. Peguei meu canivete italiano, outra joia que possuo, e vibrei contra o céu. O sangue escorreu pelo corte. E o azul intenso respingou em mim. Atravessei o portão da Ceup e tomei pela Rua São Francisco e depois pela Avenida Almirante Tamandaré até a Avenida Presidente Vargas. Sentei-me em um banquinho no Milano e pedi uma Antarctica pequena. “Como vou desforrar!” – pensei, pois acabara de conseguir uma vaga em O Liberal. Já tinha renda garantida, agora. Só precisava escrever um romance que vendesse como Cem anos de solidão, como pão francês. Então compraria um iate para vagabundar por toda a Amazônia e o Caribe. 

AMAZÔNIA está à venda no Clube de Autores, amazom.com.br e amazom.com

sábado, 11 de julho de 2026

Adriana Garcia enfrenta a Esquerda no Amapá

A jornalista Adriana Garcia entrincheira-se na AJOIA Brasil e na AJOCIN

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 11 DE JULHO DE 2026 Adriana Garcia é minha confreira na AJOIA Brasil (Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados), um grupo de dezenas de jornalistas de todo o Brasil, com membros também nos Estados Unidos e na Europa, que defendem a verdade dos fatos jornalísticos, a democracia, a liberdade de expressão, a família e a cultura hebraico-cristã. Somos jornalistas independentes, sem rabo preso. Adriana é também presidente da Associação de Jornalistas e Comunicadores da Imprensa do Norte (AJOCIN). 

A trincheira de Adriana Garcia é uma das mais perigosas do país: Macapá, a capital do Estado do Amapá, no Setentrião, o mais isolado do Brasil e dominado pelo Foro de São Paulo: comunistas, narcotraficantes, guerrilheiros homiziados e terroristas do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). Entreposto do narcotráfico transnacional, Macapá é uma das cidades brasileiras mais violentas. Na zona metropolitana da cidade fica o Porto de Santana, o ponto brasileiro mais próximo, simultaneamente, dos Estados Unidos, Europa e Ásia (via Canal do Panamá). 

O governo dos Estados Unidos classificou o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras, desde 5 de junho, o que lhe permite sanções às duas facções, como o congelamento de ativos financeiros e restrições a pessoas com vínculos com as máfias. Também não estão descartados ataques a indústria de drogas, entrepostos das facções ou explodir fortalezas de chefões dos terroristas. 

Jornalista há 24 anos, graduada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), editora-chefe do portal Conservador News, com canal no YouTube, especialista em Educação, coach, palestrante, cristã, esposa e mãe, seu microfone rosa choque começa a irritar a Esquerda amapaense, um braço da Ditadura da Toga. 

Segundo Adriana Garcia, a AJOCIN foi criada em resposta ao aumento de ações judiciais envolvendo jornalistas, comunicadores e influenciadores digitais no Amapá. Ela afirmou que há “mais de 100 processos” em andamento contra jornalistas, comunicadores e influenciadores, envolvendo o governador do Amapá, Clécio Luís, do União Brasil, mesmo partido do presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre, defensor intransigente da Ditadura da Toga e do líder da Esquerda no Brasil, Lula da Silva. 

Adriana adverte para que a mordaça leva à autocensura entre profissionais da comunicação, devido ao medo de perderem tudo em um processo – emprego, renda, liberdade, família e até seus computadores e telefones celulares, no caso de visita da Polícia Federal às 6 horas. 

– Se a gente achar isso normal, o que vai acontecer? Vai haver uma autocensura. O jornalista vai temer o que pode falar sobre autoridades por medo de ser processado e não ter condições de custear sua defesa. Isso não é democracia, é um sinal de alerta para a sociedade amapaense – disse. – Nós criamos a AJOCIN justamente para amparar esses jornalistas que querem liberdade de expressão para eles e para todas as outras pessoas. Não estamos aqui por questões políticas. Estamos aqui para preservar o direito da sociedade de ser informada e o direito de o jornalista exercer sua profissão sem medo. 

Adriana observa um fato deprimente: jornalistas de rabo preso que atuam para acabar com seus próprios colegas, por motivações políticas ou financeiras, o tipo de jornalista que adora “jabá”, gíria que significa que o profissional se vendeu, se prostituiu, geralmente, em troca de dinheiro ou emprego para si ou para familiares.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Por que ler a trilogia A Ditadura da Toga: O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO TOURO e O TERCEIRO OLHO, de Ray Cunha?

Ray Cunha monta um painel abarcando o período de 2018 a meados
de 2026, quando os EUA designam PCC e CV como grupos terroristas 

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BRASÍLIA, 9 DE 07 DE 2026 – A trilogia A Ditadura da Toga — formada por O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO TOURO e O TERCEIRO OLHO — pode interessar especialmente aos leitores que apreciam thrillers políticos, romances de conspiração e ficção que dialoga com acontecimentos históricos recentes. Segundo o próprio autor, trata-se de um projeto de "romance ensaístico", no qual personagens fictícios convivem com figuras públicas e fatos inspirados na política brasileira contemporânea. 

Há várias razões pelas quais essa trilogia pode despertar interesse: 

Thriller político de grande escala – A narrativa combina espionagem, investigação jornalística, conspirações, tecnologia, geopolítica e disputas pelo poder, procurando manter um ritmo de suspense ao longo dos três volumes. 

Mistura de ficção e acontecimentos reais – A obra utiliza personagens ficcionais ao lado de personalidades públicas e episódios inspirados na história política recente do Brasil, aproximando-se do romance-reportagem e da ficção de intervenção. 

Projeto literário unitário – Embora cada romance tenha enredo próprio, os três livros compartilham personagens centrais e um arco narrativo comum, formando uma construção contínua que culmina em O TERCEIRO OLHO. 

Discussão sobre instituições e poder – A série explora temas como relações entre Judiciário, Executivo, imprensa, inteligência, tecnologia e organizações clandestinas. Independentemente de o leitor concordar ou não com as interpretações apresentadas, a narrativa foi concebida para estimular reflexão e debate. 

Linguagem direta – A experiência jornalística de Ray Cunha se reflete numa prosa objetiva, voltada para a clareza, a ação e a exposição de ideias, sem grande preocupação com experimentalismos formais. 

Ampliação temática no volume final – O TERCEIRO OLHO expande o universo da trilogia ao incorporar discussões sobre inteligência artificial, computação quântica, espionagem tecnológica, filosofia oriental e percepção humana, ampliando o alcance da narrativa para além da política institucional. 

Ao mesmo tempo, é importante observar que a trilogia adota uma perspectiva política explícita. As teses defendidas pelo autor são centrais para a construção da narrativa e podem ser recebidas de formas diferentes pelos leitores, conforme suas próprias convicções. Essa característica torna a obra deliberadamente controversa e faz parte de sua proposta de utilizar a ficção como instrumento de interpretação da realidade política brasileira. 

Em síntese, quem procura um romance essencialmente voltado para o entretenimento talvez estranhe a presença constante de reflexões políticas e ensaísticas. Já leitores interessados em ficção política, conspirações, debates institucionais e narrativas que procuram interpretar o Brasil contemporâneo encontrarão na trilogia um projeto literário ambicioso, que busca integrar suspense, jornalismo, ensaio e reflexão filosófica em uma única obra.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

AJOIA Brasil entregará este mês a Flávio Bolsonaro o PROJETO BRASIL 2040 – Plano Nacional de Reconstrução e Desenvolvimento

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 3 DE JULHO DE 2026 – O Brasil está em uma encruzilhada, descarrilado, a 300 quilômetros por hora, não em uma pista de Fórmula 1, mas rumo ao abismo das Marianas, pilotado pelo misterioso Sistema. O outro caminho começa em 4 de outubro, quando se escolherá o presidente da República. O atual, Lula da Silva (PT), comunista, líder do Foro de São Paulo e aliado da China e Irã, quer guerra contra os Estados Unidos. Seu oponente, o senador conservador Flávio Bolsonaro (PL/RJ), é a esperança para frear a queda e conduzir o país ao desenvolvimento e à prosperidade. 

Sabe-se que tirar o Brasil do rumo do precipício, a uma velocidade dessas, não será fácil. Vai requerer muito trabalho, mas, sobretudo, um plano de trabalho meticuloso, a ser seguido à risca. A AJOIA Brasil (Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados) vai apresentar, agora em julho, este plano a Flávio Bolsonaro, um plano redigido por um dos maiores estrategistas de política, economia e planejamento do país, especialista em Inteligência e escritor Jorge Bessa. 

Bessa chefiou os Departamentos de Contra-Espionagem e de Contra-Terrorismo da antiga Secretaria de Inteligência da Presidência da República, atual Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Como espião, desempenhou várias missões no Exterior, entre as quais em Moscou, durante a Guerra Fria. Poliglota, é fluente em russo. 

Na introdução do PROJETO BRASIL 2040 – Plano Nacional de Reconstrução e Desenvolvimento, diz Bessa: 

POR QUE O BRASIL Precisa de um Projeto Nacional? Ao longo de sua história, o Brasil foi frequentemente descrito como o país do futuro. A expressão tornou-se conhecida porque refletia uma realidade aparentemente evidente. Poucas nações possuem um conjunto tão amplo de vantagens naturais e humanas. O Brasil possui território continental. Possui abundância de água, energia e recursos minerais. Possui uma das maiores áreas agricultáveis do planeta. Possui uma população numerosa e diversificada. Possui capacidade científica crescente. Possui uma posição geopolítica privilegiada. Entretanto, ao lado desse enorme potencial, persiste uma pergunta incômoda: Por que o Brasil ainda não alcançou plenamente o nível de desenvolvimento compatível com suas possibilidades? 

A resposta não pode ser atribuída a um único fator. Ela envolve questões históricas, institucionais, econômicas, educacionais, tecnológicas e políticas. Durante décadas, o país avançou em determinadas áreas, mas frequentemente perdeu continuidade, planejamento e capacidade de execução. Projetos foram interrompidos. Prioridades foram redefinidas. Reformas permaneceram incompletas. O resultado foi uma trajetória marcada por avanços importantes, mas também por oportunidades desperdiçadas. 

O século XXI apresenta ao Brasil uma nova oportunidade histórica. O mundo atravessa transformações profundas. A revolução digital está alterando a economia global. A inteligência artificial modifica processos produtivos e relações de trabalho. Novas disputas geopolíticas redesenham o equilíbrio internacional. A demanda por alimentos, energia, minerais estratégicos e conhecimento cresce rapidamente. 

Ao mesmo tempo, novas ameaças surgem. Crime organizado transnacional. Ciberataques. Disputas tecnológicas. Instabilidade econômica. Mudanças demográficas. Nenhum país poderá enfrentar esses desafios apenas reagindo aos acontecimentos. Será necessário planejar. Será necessário antecipar tendências. Será necessário construir estratégias de longo prazo. Essa é a proposta desta obra. 

O PROJETO BRASIL 2040 não foi concebido como um programa partidário nem como uma plataforma eleitoral. Seu objetivo é mais amplo. Trata-se de um exercício de planejamento estratégico nacional. Uma reflexão sobre os desafios e oportunidades que o Brasil encontrará nas próximas décadas. Uma tentativa de responder à pergunta fundamental: Que país queremos construir até 2040? 

Ao longo dos capítulos seguintes serão discutidos temas essenciais para essa transformação. A reconstrução institucional do Estado. O fortalecimento da segurança nacional. O combate ao crime organizado. A modernização da economia. A revolução educacional. A ciência e a tecnologia. A inteligência artificial. A reindustrialização. A infraestrutura. A saúde. A sustentabilidade. A inserção internacional. A governança democrática. O planejamento estratégico. 

Nenhum desses temas pode ser analisado isoladamente. O desenvolvimento nacional resulta da interação entre todos eles. Por essa razão, este livro adota uma abordagem integrada. Seu propósito não é oferecer soluções mágicas nem fórmulas simplistas. Seu propósito é construir uma visão de futuro. Uma visão baseada em planejamento, responsabilidade, conhecimento e continuidade. 

O Brasil não sofre de escassez de potencial. Sofre, muitas vezes, de escassez de coordenação estratégica. Transformar potencial em realização constitui o grande desafio nacional. O futuro não será determinado apenas pelas circunstâncias. Será determinado pelas escolhas que fizermos. O Brasil de 2040 começa nas decisões tomadas hoje. Este livro é um convite para refletir sobre essas decisões. 

Mais do que isso. É um convite para participar da construção de um projeto nacional capaz de transformar o Brasil em uma nação mais segura, mais próspera, mais inovadora e mais influente no cenário internacional. O futuro continua aberto. E a responsabilidade de construí-lo pertence a todos nós. 

Nas considerações finais, diz Jorge Bessa: 

AS CEM MEDIDAS aqui apresentadas representam apenas o início de um processo mais amplo de transformação nacional. Nenhuma delas, isoladamente, será capaz de resolver os desafios brasileiros. Mas, em conjunto, elas estabelecem uma direção. Uma direção baseada em planejamento, eficiência, inovação, segurança, desenvolvimento econômico e fortalecimento institucional. O Brasil de 2040 não será construído por uma única medida, por um único governo ou por uma única geração. Será construído pela continuidade de um projeto nacional. Os primeiros cem dias representam apenas o primeiro passo dessa jornada.