quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Uma leitura crítico-literária do conto LATITUDE ZERO: juventude, sexo e violência em Macapá

Pelo CHATGPT 

BRASÍLIA, 29 DE OUTUBRO DE 2026 – O conto LATITUDE ZERO, de Ray Cunha, constrói um universo ficcional de violência, degradação moral, juventude transgressora e desencanto intelectual, ambientado em Macapá. A cidade amazônica não aparece como cenário exótico, contemplativo ou idealizado, mas como espaço de uma experiência humana brutal, em que a boemia, o desejo, o ressentimento e a revolta se confundem numa existência à deriva. 

O resultado é uma narrativa de forte impacto sensorial, marcada por uma linguagem agressiva, pela sucessão de episódios extremos e pela representação de personagens que parecem viver à margem de qualquer código ético estável. Sob a superfície de uma noite de bebedeira e aventuras grotescas, o conto também abriga uma reflexão sobre a condição do escritor, a precariedade da vida cultural e o autoritarismo político no Amapá. 

1. A geografia como destino literário – O título, LATITUDE ZERO, é a primeira chave interpretativa da narrativa. A expressão remete à posição geográfica de Macapá, atravessada pela Linha do Equador, mas seu significado ultrapassa a cartografia. A latitude zero pode ser lida simbolicamente como um ponto de suspensão: um lugar em que os personagens parecem não avançar nem encontrar uma direção para suas vidas. 

A narrativa percorre espaços concretos da cidade — ruas, bares, praças, o Igarapé das Mulheres, a Fortaleza de São José de Macapá e a margem do Rio Amazonas. Esses lugares não funcionam como simples referências topográficas. Constituem o território existencial de uma juventude que circula entre a embriaguez, a violência, o sexo, a provocação e o vazio. 

A presença do Rio Amazonas e da Fortaleza introduz uma dimensão histórica e geográfica importante. A cidade possui uma paisagem monumental, carregada de memória, mas os protagonistas parecem incapazes de converter essa herança em horizonte espiritual ou projeto coletivo. Há um contraste entre a grandeza do espaço amazônico e a mesquinhez de muitas das ações humanas que nele se desenrolam. 

Macapá é, assim, simultaneamente, lugar de pertencimento e cenário de sufocamento. A Amazônia de Ray Cunha não se reduz à exuberância da floresta: ela também é urbana, histórica, política e psicologicamente áspera. 

2. Alexandre e Moacir Canto: dois retratos da degradação – Alexandre e Moacir Canto são os eixos da narrativa. A relação entre eles, contudo, não é uma amizade edificante: é uma associação instável, alimentada pela bebida, pela cumplicidade e por uma espécie de competição na transgressão. 

Alexandre é apresentado como alguém dotado de alguma lucidez. Em diferentes momentos, observa criticamente o ambiente cultural em que vive, demonstra consciência do autoritarismo e chega a intervir para impedir uma agressão sexual. Entretanto, sua sensatez é relativa. Ele participa das bebedeiras, das provocações e das aventuras degradantes, sendo também responsável por comportamentos que contradizem qualquer superioridade moral que pudesse reivindicar. 

Essa ambivalência é um dos aspectos mais interessantes do personagem. Alexandre não é um herói convencional, mas tampouco se confunde inteiramente com os indivíduos mais violentos que o cercam. Sua consciência crítica convive com a incapacidade de romper com o meio em que está inserido. 

Moacir Canto, por sua vez, é construído como uma figura dominada pelo ressentimento. A desestruturação familiar, o abandono paterno e a miséria ajudam a explicar a origem de seu ódio, mas não justificam suas ações. Ele transforma a frustração em agressividade e encontra no sofrimento alheio uma forma de prazer. 

O episódio em que ataca uma mulher idosa, assim como as agressões contra meninas e mulheres, evidencia uma personalidade que converte a própria impotência em violência contra os mais vulneráveis. 

Há, portanto, uma distinção fundamental: o conto apresenta circunstâncias capazes de explicar a formação de um indivíduo violento sem necessariamente absolvê-lo de sua responsabilidade. 

A beleza física de Moacir, mencionada pelo narrador, acentua o contraste entre a aparência e a conduta. O corpo atraente não revela uma interioridade nobre; ao contrário, os olhos do personagem inspiram medo. A oposição entre beleza e monstruosidade moral contribui para a construção de uma figura que desafia qualquer leitura superficial. 

3. A violência sexual e a representação do grotesco – Um dos aspectos mais perturbadores de LATITUDE ZERO é a frequência com que a sexualidade aparece associada à dominação, à humilhação e à violência. 

Os episódios envolvendo Moacir Canto e Galego Demônio ultrapassam a descrição de uma juventude libertina. O conto apresenta agressões sexuais, tentativas de estupro e comportamentos predatórios. A sexualidade, em boa parte dessas passagens, deixa de ser uma experiência de intimidade para se converter em instrumento de poder. 

É importante distinguir a representação literária dessas ações de sua aprovação pelo autor. A ficção pode expor personagens moralmente repulsivos sem endossar seus atos. No entanto, a maneira como uma narrativa representa a violência determina parte de seu efeito sobre o leitor. 

Em LATITUDE ZERO, o grotesco é um dos principais instrumentos de composição. O corpo humano aparece em suas dimensões mais materiais, degradadas e repulsivas. A linguagem recorre a imagens fisiológicas, palavrões e situações extremas para romper com a idealização romântica da juventude. 

O procedimento tem uma função estética: destruir a imagem convencional do jovem boêmio como figura necessariamente fascinante, rebelde ou libertária. Aqui, a transgressão frequentemente revela crueldade, egoísmo e desprezo pelos outros. 

Entretanto, existe uma tensão crítica. Em certas passagens, o riso dos personagens acompanha situações de violência contra mulheres. O humor, nesses casos, pertence ao universo moral degradado que o conto retrata, mas pode também produzir um efeito ambíguo: a brutalidade corre o risco de ser absorvida pela comicidade da cena. 

Essa ambiguidade não invalida a obra. É, antes, um dos pontos que merecem maior atenção numa leitura crítica: o grotesco é mais poderoso quando o leitor percebe não apenas o caráter repulsivo das ações, mas também o mecanismo pelo qual os próprios personagens se tornam incapazes de reconhecer a gravidade do que fazem. 

4. Uma juventude sem projeto – A juventude retratada no conto vive em movimento. Os personagens atravessam a cidade, entram e saem de bares, bebem, provocam desconhecidos, discutem literatura e desafiam autoridades. 

Mas esse movimento físico não corresponde a uma transformação interior. A bebida funciona como combustível de uma existência que precisa de estímulos cada vez mais intensos para escapar do tédio. As provocações, as agressões e as aventuras sexuais tornam-se formas de preencher um vazio que permanece intacto. 

A frase de Galego Demônio sobre a rotina ser um veneno lento sintetiza uma concepção de liberdade baseada na recusa da vida organizada. A aventura é apresentada como alternativa ao estudo, à disciplina e às obrigações. Alexandre, porém, revela a fragilidade dessa filosofia: decide fazer suas provas, não porque tenha sido convencido por algum princípio superior, mas porque se cansa da conversa do companheiro. 

O episódio é revelador. Os personagens não parecem orientados por valores consistentes; suas decisões dependem de impulsos, circunstâncias e humores. O conto sugere, assim, uma juventude que confunde liberdade com ausência de limites. A rebeldia, sem um projeto que a sustente, degenera em repetição de gestos destrutivos. 

Essa perspectiva confere densidade ao retrato social. O problema não é simplesmente a existência de jovens que bebem ou desafiam convenções. É a incapacidade de transformar a negação da ordem existente em uma alternativa humana, intelectual ou política. 

5. A crítica ao ambiente literário do Amapá – Um dos núcleos mais significativos do conto encontra-se na conversa entre Alexandre e Moacir Canto sobre a produção literária local. Alexandre lamenta a ausência de editoras, de público e de reconhecimento. A imagem da cidade como uma sepultura e uma fábrica de poetastros condensa o desprezo dos personagens por um ambiente cultural que consideram provinciano, improdutivo e dominado por escritores sem mérito. 

O diálogo introduz uma questão que ultrapassa a experiência individual: como pode existir uma literatura vigorosa onde faltam as condições materiais e institucionais para sua circulação? O conto não oferece uma resposta sistemática, mas apresenta os elementos do problema. O escritor aparece condicionado por um mercado editorial precário, pela escassez de leitores e pela falta de reconhecimento público. 

A crítica, entretanto, não se limita às instituições. Galego Demônio representa uma deformação interna do próprio meio literário. Sua produção compulsiva, sua megalomania e a autopromoção grotesca fazem dele uma caricatura do escritor que confunde quantidade com qualidade e escândalo com realização artística. 

O título Eu Imortal, atribuído ao livro do personagem, é particularmente expressivo. A pretensão de imortalidade literária contrasta com a mediocridade que os demais lhe atribuem. O episódio do suposto erro ortográfico em Eu Imortal acrescenta uma camada de sátira, embora a discussão linguística travada entre os personagens não constitua, por si só, um julgamento definitivo sobre a qualidade de uma obra. 

É preciso observar, ainda, que Alexandre e Moacir não são críticos inteiramente confiáveis. Suas avaliações são atravessadas pela agressividade, pelo ressentimento e pela própria degradação que os caracteriza. Por isso, a crítica literária do conto ganha interesse quando lida como parte de um universo de vaidades e frustrações, e não como pronunciamento objetivo de um narrador imparcial. 

A literatura aparece, simultaneamente, como aspiração de grandeza e como espaço de miséria humana. 

6. O jornal A Galinha e o confronto com a ditadura – O episódio do jornalzinho A Galinha constitui outro núcleo decisivo. A publicação, que não passa do primeiro número, satiriza o governador militar do Amapá e o diretor do Colégio Amapaense, associando o exercício do poder à vigilância sexual, ao abuso de autoridade e à hipocrisia. 

A narrativa introduz, nesse ponto, uma dimensão política mais explícita. O autoritarismo não aparece apenas como sistema institucional distante: invade a escola, condiciona a circulação da informação e pune a irreverência dos jovens. A suspensão dos responsáveis pelo jornal evidencia a assimetria entre o poder estabelecido e aqueles que tentam contestá-lo. O projeto editorial fracassa, mas o episódio revela uma disposição de confronto que não se reduz às provocações dos bares. 

É interessante que a rebeldia política de Alexandre conviva com sua desordem pessoal. O personagem pode desafiar uma autoridade ditatorial e, ao mesmo tempo, demonstrar comportamentos moralmente condenáveis em outras esferas da vida. Essa contradição impede uma leitura simplista segundo a qual os rebeldes seriam automaticamente virtuosos e os representantes da ordem seriam os únicos responsáveis pela degradação social. 

O conto constrói um mundo mais incômodo: a autoridade pode ser opressora, mas a oposição a ela não garante, por si só, superioridade ética. O episódio também sugere que o poder não controla apenas instituições; controla, ou tenta controlar, os limites do discurso público. A sátira torna-se perigosa porque expõe aquilo que os detentores da autoridade prefeririam manter protegido. 

7. Estrutura narrativa: a madrugada como espiral – Formalmente, o conto se organiza por meio de uma narrativa emoldurada. No início, Alexandre e Moacir Canto despertam num depósito de madeira, depois de uma noite de excessos. A partir dessa situação, a narração recupera episódios anteriores e incorpora histórias contadas pelos personagens. O leitor acompanha deslocamentos entre o presente da madrugada, as lembranças de Alexandre e acontecimentos anteriores envolvendo Galego Demônio. 

Essa estrutura produz uma impressão de desordem, mas não é inteiramente arbitrária. A própria forma da narrativa reproduz o universo mental dos protagonistas: fragmentado, impulsivo e dominado por associações que conduzem de uma história a outra. Os bares funcionam como estações de passagem, enquanto a bebida favorece a circulação das lembranças. A narrativa avança menos por uma investigação psicológica linear do que pela acumulação de episódios que revelam progressivamente a natureza dos personagens. 

O procedimento tem vantagens e limitações. Sua principal vantagem é a energia narrativa. Os acontecimentos sucedem-se com rapidez, e cada episódio amplia o retrato de um ambiente social marcado pelo excesso. 

A limitação é que algumas histórias secundárias, embora memoráveis pela violência ou pelo grotesco, podem competir com o eixo central do conto. A multiplicação de incidentes nem sempre aprofunda proporcionalmente a psicologia dos protagonistas. Em determinados momentos, o impacto parece depender mais da intensidade do acontecimento do que de sua integração à arquitetura narrativa. 

Ainda assim, a estrutura descontínua combina com a experiência de uma noite em que o tempo perde a linearidade e a memória se transforma numa sucessão de cenas. 

8. A linguagem: entre o lirismo e a brutalidade – A prosa de Ray Cunha trabalha com dois registros aparentemente opostos. De um lado, há imagens de forte elaboração poética. A luz do poste que luta contra a névoa, a claridade que penetra no depósito e a descrição da madrugada criam uma atmosfera visual e quase cinematográfica. O cenário não é introduzido de maneira neutra: ele participa do estado de abandono dos personagens. 

De outro lado, a narrativa utiliza palavrões, imagens corporais agressivas e vocabulário deliberadamente vulgar. O contraste entre a construção poética e a brutalidade verbal é um dos traços mais reconhecíveis do conto. Essa alternância impede que o texto se estabilize numa única tonalidade. A beleza da paisagem não suaviza a violência humana; a linguagem obscena, por sua vez, não elimina a capacidade de observação estética. 

O narrador aproxima o leitor dos corpos, dos cheiros, da umidade, da bebida e dos espaços degradados. O ambiente é experimentado sensorialmente, como se a cidade pudesse ser apreendida não apenas pelo olhar, mas também pelo contato físico com suas ruas e seus excessos. 

Há, contudo, imagens cuja intensidade parece buscar o choque por si mesmo. A acumulação de termos repulsivos pode produzir uma saturação em que a violência seguinte já não surpreende tanto quanto a anterior. A economia verbal e a seleção de detalhes poderiam, em alguns trechos, tornar certas cenas ainda mais contundentes. 

Essa ressalva não diminui a força da linguagem. Identifica, antes, a tensão central de uma escrita que aposta no excesso como método de representação. 

9. O desfecho: o grotesco transforma-se em tragédia – O último episódio, envolvendo Galego Demônio e sua irmã, Bunda de Breque, desloca o conto para um território de horror. A violência, até então frequentemente associada à bebedeira, à provocação e ao riso, assume uma dimensão irreversível. O assassinato brutal do personagem rompe com a lógica das aventuras noturnas: já não se trata de mais uma agressão seguida de fuga, nem de uma provocação cujo efeito se esgota na humilhação da vítima. 

O detalhe final — Bunda de Breque tocando O Silêncio no trompete — é especialmente significativo. A música introduz uma imagem paradoxal. Depois do massacre, o personagem sobrevivente toca uma composição cujo título remete à ausência de som. O gesto pode ser lido como uma forma de ritualização do crime, uma tentativa de dar expressão musical ao horror ou uma manifestação da normalização da violência naquele universo ficcional. 

A narrativa não explica o significado do gesto, e essa indeterminação é produtiva. O leitor precisa estabelecer a relação entre o assassinato e a música. O desfecho também reconfigura retrospectivamente o conto. A violência que parecia integrar uma sucessão de episódios grotescos revela uma capacidade de desembocar na destruição absoluta. 

O silêncio, nesse sentido, não significa paz. Pode representar a interrupção definitiva da voz, a suspensão da vida ou o vazio deixado por uma existência inteiramente consumida pela brutalidade. 

10. O conto como retrato de uma sociedade degradada – Embora a narrativa se concentre em indivíduos, sua matéria não é exclusivamente psicológica. A família desestruturada de Moacir, o autoritarismo político, a precariedade cultural e a violência sexual compõem um quadro social mais amplo. 

Não seria correto, porém, concluir que todos esses elementos derivam de uma única causa. O texto apresenta condições sociais e familiares que ajudam a compreender os personagens, mas também enfatiza escolhas individuais, ressentimentos e formas particulares de exercer a violência. 

É justamente nessa combinação que reside parte da complexidade do conto. A sociedade aparece como um espaço em que diferentes formas de poder convivem: o poder político, o poder econômico, a autoridade familiar, a influência cultural e a força física. Em quase todos esses domínios, os personagens encontram mecanismos de imposição ou humilhação. 

A violência não pertence exclusivamente a uma instituição. Ela circula pelas relações sociais, reproduzindo-se de maneira desigual e atingindo, com particular brutalidade, aqueles que dispõem de menos recursos para se defender. 

Por isso, LATITUDE ZERO pode ser lido como uma narrativa sobre a falência de referências éticas. O problema não é apenas a existência de indivíduos perversos, mas a formação de um ambiente no qual a crueldade se transforma em entretenimento, a humilhação em motivo de riso e a transgressão em substituto de qualquer projeto de vida. 

11. Avaliação crítica: méritos e limites – Principais méritos: A construção de uma atmosfera amazônica urbana, concreta e pouco convencional. A combinação de lirismo, vulgaridade e grotesco. O retrato ambivalente de Alexandre, cuja lucidez não elimina suas contradições. A sátira do ambiente literário e a representação do confronto com o autoritarismo. O desfecho musical, que transforma o horror em uma imagem de forte ressonância simbólica. 

Principais limitações: A sucessão de episódios extremos pode produzir dispersão narrativa. Algumas personagens secundárias funcionam mais como figuras de choque do que como individualidades plenamente desenvolvidas. A insistência no grotesco corre o risco de tornar a violência repetitiva. O humor associado a agressões pode gerar ambiguidade entre a representação da degradação e a banalização do sofrimento. 

Essas limitações não são necessariamente defeitos absolutos: parte da descontinuidade e do excesso pode ser entendida como opção estética. A questão crítica consiste em avaliar quando tais recursos ampliam a experiência do leitor e quando passam a competir com o desenvolvimento da narrativa. 

Conclusão — a latitude de um mundo sem norte – LATITUDE ZERO é um conto de aspereza deliberada. Ray Cunha constrói uma Macapá noturna em que a geografia equatorial contrasta com a desorientação moral de seus personagens. O Rio Amazonas, a Fortaleza, os bares e as ruas compõem o cenário de uma existência marcada pelo excesso, enquanto o ambiente cultural e o poder político fornecem dimensões adicionais ao retrato. 

A obra ganha força quando articula a brutalidade dos indivíduos às contradições do meio social, sem transformar seus protagonistas em porta-vozes de uma moral inequívoca. Alexandre é capaz de lucidez e de abjeção; Moacir é, ao mesmo tempo, produto de uma história de ressentimento e agente consciente de crueldades; Galego Demônio encarna a caricatura de uma pretensão literária que termina tragicamente. 

O conto não oferece redenção fácil. Sua energia provém justamente do confronto com personagens que parecem ter perdido a capacidade de distinguir liberdade de arbitrariedade, prazer de dominação e rebeldia de destruição. 

A meu ver, sua contribuição mais relevante está em recusar uma representação ornamental da Amazônia. Macapá não é apenas paisagem: é também espaço de conflito, de miséria cultural, de autoritarismo e de experiências humanas extremas. 

O título concentra essa visão. LATITUDE ZERO é a posição geográfica de uma cidade, mas, na leitura simbólica, pode designar também o ponto em que uma sociedade perde suas coordenadas éticas. Os personagens sabem circular pelas ruas, encontrar os bares e reconhecer seus territórios; o que não conseguem é encontrar um norte para a própria existência. É essa contradição que dá ao conto sua dimensão mais sombria. 

LATITUDE ZERO permanece, assim, como uma narrativa de impacto, cuja força reside na linguagem, na atmosfera e na representação de um mundo moralmente desorientado — uma Amazônia urbana que não pede contemplação, mas confronto.

LATITUDE ZERO compõe o livro AMAZÔNIA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Da arte do voluntariado em Acupuntura

Não existe ontem nem amanhã. O erro de ontem, seja lá
o que for, é sabedoria de hoje, e o que é esperado, amanhã,
é ilusão, não existe. Assim, tudo o que temos que fazer para
viver em paz e com harmonia é curtir a vida, não importa
como se apresente, pois a eternidade é agora

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 28 DE OUTUBRO DE 2026 – O presidente do Instituto Fernando Hessen, Ricardo André, pediu-me para alinhavar alguns itens de segurança para o voluntariado em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), especialmente Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que realizamos todos os sábados, das 9 horas até o início da tarde, no Centro Comunitário da Candangolândia. 

Para a realização das atividades é fundamental que o voluntário realize seu trabalho com amor, compromisso e dentro das regras da instituição. Segundo as Nações Unidas, “voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social”, tais como hospitalar, creches, asilos, mutirões públicos etc., realizadas por pessoas, grupos, ONGs ou instituições. 

Pessoalmente, considero meu trabalho voluntário em MTC como uma residência acadêmica. Ao longo de mais de 10 anos de voluntariado atendi centenas de pacientes, de ambos os sexos, mulheres grávidas, pessoas de todas as idades, crianças, jovens e idosos, e com todo tipo de comorbidade, o que me estimula a estudar e pesquisar mais e mais o corpo humano e seu funcionamento, alimentação, comportamentos e a própria vida. Com essa experiência é que posso investigar e compreender as causas do sofrimento dos pacientes. 

Além de o voluntariado lançar luz sobre o que é a vida, o amor, o compromisso, ainda faturamos o aprendizado de nos relacionarmos harmonicamente com o próximo. 

Um equívoco quanto ao voluntariado é participar dele buscando projeção social ou contatos comerciais. É um equívoco porque interesses secundários impedem a concentração no objetivo do voluntariado: acolher. 

Para que o fluxo dos trabalhos aconteça de força harmônica e contínua, sem contratempos, é necessário observarmos algumas coordenadas, as quais enumero a seguir: 

1 – As macas devem ficar a um metro umas das outras e meio metro distantes da parede, para que o terapeuta possa girar em torno do paciente. Isso é o ideal. Não havendo condições ideais, deve-se arrumar as macas da melhor maneira possível para o bom andamento dos trabalhos. 

2 – Deve-se falar em tom de voz baixo e evitar músicas no ambiente, mesmo as consideradas relaxantes, pois qualquer ruído interfere na anamnese.

3 - Não obstrua os corredores e a bancada onde fica o material que está sendo utilizado durante o atendimento. Bata papo fora do salão onde estão as macas. 

4 – Importantíssimo: ao terminar de retirar as agulhas de um paciente idoso, oriente-o a levantar-se corretamente e, se for preciso, ajude-o a levantar-se. Só o deixe quando ver que ele está em segurança, pois se um idoso cair, ao tentar levantar-se sozinho, e morrer, vai dar polícia, Justiça, indenização e até paralisação dos trabalhos, ou seja, problemas graves para a instituição.

5 – Assim que o paciente for atendido é necessário anotar na ficha o horário de retirada das agulhas, ou das ventosas. E assim que as anotações forem feitas, coloque a caneta no lugar dela, para que todo mundo possa usá-la.

6 – Na véspera do sábado, arrume, na sua casa, seu jaleco e procure comparecer aos trabalhos o mais arrumado possível, pois, assim, você transmitirá confiança ao paciente. 

7 – Qual é a ordem de pôr e retirar agulhas de acupuntura? A estética na arte de inserir 

Em acupuntura, trabalhamos com a energia Qi, que pode ser chamada também de energia vital, ou Deus. Ela vem sempre do alto. As agulhas são antenas para captar a energia Qi e, os acupontos, vórtices que absorvem o Qi e o introduzem nos meridianos, ou canais energéticos. 

Assim, diagnosticado o desequilíbrio energético, devemos começar a aplicar o protocolo selecionado sempre do alto para o baixo. Procuro aplicar as agulhas, em qualquer caso, começando pelo VG20 (Vaso Governador 20), ou Chacra Coronário. Vigésimo ponto do Vaso Governador, situa-se no topo da cabeça, constituindo-se, portanto, no ponto mais alto do corpo, ou o ponto mais Yang. 

A energia Qi tem duas polaridades, Yin e Yang, negativa e positiva, que se complementam, amalgamam e se transformam uma na outra, quando atingem seu ponto de equilíbrio. O Tao, a vida plena, é o equilíbrio de Yin e Yang. 

O VG20 é o ponto mais próximo do céu, do espírito. Clareia o tempo nublado, os pensamentos, promovendo fé, esperança, ânimo, entusiasmo. Dissipa depressão e ansiedade, e remete a pensamentos bons; à luz. 

A seguir, acrescento o Yintang, o chacra do Terceiro Olho, um ponto entre as sobrancelhas. Esse ponto abre os olhos da mente. 

Agora, o paciente está pronto para receber o restante do protocolo, até os pés. 

Para retirar as agulhas, a mesma coisa. Vamos supor que se retire as agulhas do baixo para o alto, ou desordenadamente. Ao se retirar a agulha posicionada na parte mais inferior do corpo a energia Qi se escoa. Agora, vamos supor que o acupunturista comece a retirar as agulhas no meio do corpo. Aí, estará interrompendo o fluxo energético entre o alto e o baixo. 

De modo que se deve retirar as agulhas também do alto para o baixo, pois, assim, o equilíbrio conseguido com o fluxo energético acionado pelo protocolo utilizado será conservado até depois da retirada da última agulha, no baixo. 

Outra questão que perpassa a prática da acupuntura é a posição das agulhas. Lembro que, há muitos anos, um amigo meu, um dos maiores pintores do Pará, José de Moraes Rego, um esteta, por conseguinte, e também proctologista, me contou que teve um professor na universidade que lhe passou um ensinamento o qual seguiu a vida toda. 

Ao costurar um tecido rompido, mesmo no ânus, a costura deve ser correta, deve ter uniformidade e ser feita com o devido cuidado. Em outras palavras, a costura deve ter elementos estéticos: ordem, ritmo, intenção bondosa. O resultado será o ápice estético, nesse caso, a cura, o ajustamento das duas bordas do tecido de forma que não surja queloide, que o tecido volte ao normal. 

Assim é com as agulhas, que são antenas afixadas em vórtices para captarem a energia Qi. Na acupuntura bilateral, as agulhas devem ser afixadas em posições semelhantes e na profundidade certa, obedientes à ordem, ritmo e intenção bondosa. 

O corpo é apenas um trajo espacial que o espírito veste para viver na atmosfera terrestre. É a parte material da mente. Mas a mente é composta também de outros corpos, como, por exemplo, o astral, o corpo das emoções. 

Se o acupunturista compreende como funciona a energia Qi e obedecer às leis da ordem, sendo fiel ao protocolo e posicionando as agulhas com ritmo e obedecendo às leis da estética, inclusive do alto para o baixo, gerará boas emoções e terá alcançado seu objetivo. O resto é com o paciente. 

Ainda sobre as agulhas: certifique-se de que, ao retirar as agulhas do paciente, removeu todas elas, para evitar que o paciente saia com agulhas afixadas nele, especialmente em acupontos delicados, pois essas agulhas podem ser acidentalmente aprofundadas e até atingir órgãos como a pleura, ou provocar dor e pequenas hemorragias. Se agulhas caírem no chão, procure-as e apanhe todas, para descarte. Evite deixar agulhas no chão, especialmente as usadas, pois podem se tornar objetos infecciosos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS – Espero ter contribuído para com o voluntariado! Uma explicação: eu poderia ter alinhavado essas considerações e as enviado diretamente ao Ricardo André, mas preferi assim, compartilhando-as com todos. Faço, ainda, uma advertência: essas considerações são baseadas na minha experiência como acupunturista e em pesquisas; não se configuram em verdade absoluta. 

Mesmo porque até as leis da Física são questionadas o tempo todo; os cientistas descobrem, todos os dias, que o corpo humano é uma máquina biológica perfeita; e que a mente humana, que comanda essa máquina, é ainda mais maravilhosa. 

Então, estamos, todos, apenas seguindo o fluxo da vida, descobrindo, cada vez mais, que todo o Universo está contido na mente de cada um de nós, e que somente cada um de nós somos o verdadeiro acupunturista, ou médico, ou terapeuta, de nós mesmos, na medida em que compreendemos que somos deuses, na jornada rumo à Luz. 

Recomendo a leitura do meu livro PARE DE SOFRER – VIVA A VIDA – VIVÊNCIAS NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Cenas de ditadura

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 27 DE OUTUBRO DE 2026 – O ditador preparou-se para estuprar a filhinha de um assessor dele, com o consentimento do pai dela: “Ele a segurou pelo braço e deitou-a ao seu lado. Com movimentos de pernas e de cintura, montou sobre ela. Aquela massa de carne a esmagava, afundando-a no colchão; o bafo de conhaque e a raiva lhe davam náuseas. Sentia seus músculos e ossos sendo triturados, pulverizados. Mas nada disso impediu que notasse a rudeza daquela mão, daqueles dedos que exploravam, escavavam e entravam nela à força. Sentiu-se rachada, esfaqueada; um relâmpago percorreu seu corpo do cérebro aos pés. Gemeu, sentindo que ia morrer”. 

– Grite, sua cadelinha, vamos ver se você aprende – cuspiu a vozinha ferina e ofendida de Sua Excelência. – Agora, abra-se. Deixe eu ver se está furada mesmo, se você não está gritando só de farsante que é. 

No porão do regime. Quando o castraram, o fim estava próximo. Não cortaram os testículos com uma faca, mas com uma tesoura, enquanto estava sentado no Trono. Ouvia risos hiperexcitados e comentários obscenos, de uns sujeitos que eram apenas vozes e cheiros ácidos, de axilas e fumo barato. Não lhes deu o prazer de ouvi-lo gritar. Eles lhe enfiaram os testículos na boca, e ele os engoliu, desejando que tudo aquilo apressasse a sua morte, coisa que nunca imaginou que pudesse desejar tanto. 

Mais presos políticos. Duas ou três semanas depois, em vez do habitual prato fedorento de farinha de milho, trouxeram para o calabouço uma panela com pedaços de carne. Os dois quase engasgaram, comendo com as mãos até se fartar. Pouco depois, o carcereiro voltou a entrar. Olhou para um deles. Queria saber se não lhe dava nojo comer o seu próprio filho. Do chão, o preso o insultou. 

– Filho da puta nojento engula a língua e se envenene. 

O carcereiro riu. Foi e voltou, mostrando pela porta uma cabeça juvenil que segurava pelos cabelos. O pai do rapaz decapitado morreu horas depois, nos braços do seu companheiro de cela, de ataque cardíaco.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Não chore leite derramado. Também não fique somente dentro das quatro linhas. Lembre-se: você está travando uma guerra contra belzebu

O Anjo Caído (1847), de Alexandre Cabanel – França 

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 26 DE OUTUBRO DE 2026 – A Direita amanheceu, hoje, praticamente aos prantos, chorando leite derramado, porque, contra toda as probabilidades, tudo o que era matematicamente previsto, o comunista Lula da Silva foi reeleito para um quarto mandato. Até um cachorro entende que era isso mesmo o que ia acontecer. Lula tem todas as cartas nas mãos: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Supremo Tribunal Federal (STF), imprensa, professores, do ensino médio e universitário, Congresso Nacional, o povão etc. 

Nas eleições de 2026, entre Lula e Flávio Bolsonaro, aconteceu a mesma coisa que em 2022, entre Lula e Jair Bolsonaro, pai de Flávio. O Partido dos Trabalhadores (PT), sob o comando de Lula, fez ampla propaganda inventando que os Bolsonaro iam impor o terror. O brasileiro comum acreditou. Conheci caso, pessoalmente, de pessoas instruídas que acreditam que se um Bolsonaro assumir a Presidência vai perder sua aposentadoria ou sua casa. Imaginem o pessoal do bolsa-família. 

Há outra questão: novamente, as eleições foram fraudadas. Desde a instituição das urnas eletrônicas no Brasil a Esquerda não perde uma. Flávio não reconheceu o resultado, nem Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. 

Mas não adianta chorar leite derramado. Trava-se uma guerra e a guerra só acaba quando um dos lados vira pó. A Direita, no Brasil, ainda não virou pó. Continua no ringue, e com chances de vender. Senão vejamos. 

1 – Lula está caindo de podre. É mantido por aparelhos. Como ditador que é, pensa que não vai morrer nunca, daí porque podou qualquer um, no PT, que se destaque, pois não quer nem ouvir falar em concorrência. 

2 – A Direita fez maioria no Congresso Nacional, podendo fazer o presidente nas duas casas e impedir novos lulistas no Supremo, impichar ministros e o próprio Lula. 

3 – O presidente americano, Donald Trump, já capturou um dos dois chefões do Foro de São Paulo, o ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e, agora, está à caça do outro: Lula da Silva. Também Trump deverá tirar o visto e meio mundo com a Lei Magnitsky. 

4 – Apesar da ditadura da toga, Lula terá muita dificuldade de governar. Se quiser comprar o Congresso Nacional, como sempre fez, enfrentará maioria da Direita, e se muitos desses parlamentares resolverem se prostituir não há dinheiro para despejar nas emendas espúrias deles. 

5 – A Economia brasileira ficará cada vez mais insustentável, com inflação, alta do dólar, queda nas bolsas de valores, fuga de capital, falta de investimento, taxação na exportação, marco legal desacreditado e violência imposta pelo crime organizado, que dominará cada vez mais territórios. 

6 – Como Lula se aliou ao Eixo do Mal, as democracias vão se afastando cada vez mais dele. 

7 – Flávio Bolsonaro e os governadores eleitos de Direita, liderados pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, vão criar uma espécie de governo paralelo, dando, também, as cartas, especialmente com a ajuda da maioria de Direita no Congresso Nacional. 

8 – Lula vai tentar, novamente, amordaçar todo mundo. Mas a mídia de Direita está cada vez mais experiente. Já há até uma entidade que reúne a elite do jornalismo brasileiro de Direita trabalhando a todo pano nesta guerra: a Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (AJOIA Brasil). 

9 – Lula poderá ser derrubado também pela gastança. Ele e família já rasparam a Burra; gastaram até o dinheiro dos aposentados. Até agora, o povo tem agido como zumbi. Mas quando começar a aparecer meninas estupradas e mortas nas ruas, o crime organizado mandar tocar fogo nas pessoas, residências e fazendas invadidas, os pets indo para a panela e o lixo do Palácio da Alvorada não dando para todo mundo, pode ser que a zumbilândia desperte do encanto que Lula desperta.

sábado, 24 de outubro de 2026

És estúpido, és?

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 24 DE OUTUBRO DE 2026 – Quando via conhecidos meus, gente com QI elevado, lambendo os pés inchados de Lula da Silva e dos zumbis Fidel Castro, Che Guevara e Hugo Chávez Maduro, ficava encucado. Até que matei a charada. Eu era cem por cento liberal, até debruçar-me sobre o comunismo, petismo e lulismo, e sentir na pele, na família e na sociedade a tragédia que é a máfia comunista. 

O liberalismo é o pensamento político e econômico que prega liberdade individual, igualdade perante a lei e limitação do poder do Estado. Surgiu na Europa, no século XVII, no contexto do Iluminismo e em oposição ao Absolutismo. Continuo liberal, defendendo a autonomia do indivíduo e liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e de religião, governo constitucional e Estado enxuto. 

Não posso mais é tolerar a estupidez dos petistas, sob o risco de viver no inferno em que o Brasil se tornou na ditadura petista-judicial, com centenas de presos políticos morrendo nos porões, a imprensa amordaçada ou vendida, o Erário assaltado e o crime organizado dando as cartas. 

Mas por que pessoas com suposto QI alto baba ovos, nestas alturas, gorados, de Lula da Silva? Há três tipos de eleitores de Lula: o que está levando grana, de alguma forma; o ingênuo, que acredita nas mentiras de Lula; e o estúpido. 

O escritor e pensador austríaco/alemão Robert Musil escreveu o ensaio Sobre a Estupidez, em 1937, e o teólogo e pastor alemão Dietrich Bonhoeffer escreveu Estupidez: Três Ensaios, nos anos 1940. Esses trabalhos esclarecem que a estupidez é um perigo muito maior do que a maldade, porque o mal pode ser exposto e combatido, mas a estupidez, não, pois é imune à razão. 

Assim, a estupidez não é um defeito intelectual, a falta de inteligência (QI baixo). Pessoas academicamente brilhantes podem ser estúpidas, enquanto pessoas simples podem ser sábias. A estupidez é um defeito sobretudo moral e social; ocorre quando uma pessoa abre mão do seu senso crítico, anula-se, em troca do pertencimento a um grupo, ou a uma ideologia. 

O estúpido ignora fatos que contradizem aquilo em que acredita. Se os fatos forem incontestáveis, claros, ele diz que se trata de teoria da conspiração. Se for chifre, dirá que o pé de pano estava com sua mulher na cama massageando-a. É um zumbi, um robô nas mãos de psicopatas como Lula, por exemplo. Guia-se por slogans. Perde a capacidade de pensar. A estupidez não pode ser vencida com argumentos, pois o estúpido não raciocina. 

Só há um remédio contra ela: a libertação espiritual do indivíduo. Mas como fazer isso? Talvez uma mudança profunda no ambiente social ou político. É o que acontecerá, amanhã, com a eleição a presidente de Flávio Bolsonaro, que, se vencer, e tomar posse, começará um trabalho radical para incinerar o aparelhamento do Estado promovido por Lula, e para estancar o assalto à Burra que o molusco vem cometendo, desde 2003. 

Escrevi: se vencer, e se tomar posse, porque o stablishment, o regime, a ditadura da toga, não vai largar o osso facilmente. Mas Flávio conta com a pressão de um Congresso Nacional eleito com maioria de Direita e com o Escudo das Américas, liderado por Donald Trump. Vamos ver no que dá, amanhã.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Carta aberta para Dr. Furlan, governador eleito do Amapá, recomendando que leia JAMBU

JAMBU, na edição do Clube de Autores: o coração das trevas

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 23 DE OUTUBRO DE 2026 – Caro Dr. Furlan, governador eleito do Amapá. 

Sou caboco de Macapá/AP. Jornalista, trabalhei como repórter, redator e editor nos maiores jornais impressos da Amazônia durante uma década e meia, o que me permitiu viajar amplamente pelo Trópico Úmido, inclusive a selva ínvia, além das cidades mais importantes, o que me deu lentes especiais para enxergar a Hileia, lentes que foram alçadas ao requinte por meio de uma das minhas paixões: a leitura científica e literária da produção de cientistas que se debruçam sobre a região e a literatura da região, no caso do Amapá, especialmente um dos escritores que melhor compreenderam o Setentrião: Fernando Canto. 

Antes de me tornar jornalista eu já era ficcionista, de modo que a Amazônia, e o Amapá, em especial, se tornaram, naturalmente, ambientação para alguns dos meus romances, como A CASA AMARELA, JAMBU e A CONFRARIA CABANAGEM. A convite de Fernando Canto, tornei-me o primeiro correspondente da Academia Amapaense de Letras (AAL), aprovado por unanimidade, em Brasília/DF, onde moro.

JAMBU pode ser livro na Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda ou na Biblioteca da Universidade Federal do Amapá (Unifap), ou adquirido no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com. 

Assim, tornei-me um analista da geopolítica do Amapá, estudando sua geografia e sua história. O Amapá é o Estado mais isolado do país e uma das maiores vítimas do coronelismo, atualmente, nas mãos da família Alcolumbre, que manda e desmanda no destino dos amapaenses, cada vez mais acossados pela violência e falta de perspectivas econômicas, imprensa amordaçada ou vendida e corrupção generalizada. 

Venho observando seu trabalho e sua vida pregressa já de algum tempo. Sua ficha é boa. E o senhor tem a oportunidade história de reverter a situação do Amapá, desobstruindo os gargalos que drenam o desenvolvimento do Setentrião. 

Seguem, aqui, alguns itens observados por mim, que, se já não foram previstos pela sua equipe, podem ser levados em consideração: 

Para sua governança: 

1 – A criação de uma central de inteligência integrando as Polícias Civil e Militar do Estado, a Polícia Federal e as Forças Armadas, e o Escudo das Américas. Inteligência de Estado significa o senhor receber diariamente boletins sobre a realidade política, econômica, geopolítica e social, respaldando planos de governo, correções e medidas a serem tomadas. 

2 – Um núcleo competente de assessoramento junto à Assembleia Legislativa. 

3 – Uma representação em Brasília com nível diplomático e de trânsito nos três poderes. 

Para o desenvolvimento do Estado: 

1 – O Amapá recebe energia firme do Linhão de Tucuruí e, mesmo assim, sofre com apagões. Por quê? Não conta com subestações locais suficientes para transformar e distribuir a eletricidade. Simples assim. Basta a instalação de subestações suficientes para que o Estado não sofre mais apagões. Além do Linhão também tem que estar com um sistema de produção de energia elétrica próprio. Sem isso, continuará comendo poeira. 

É muito mais importante a instalação de subestações do que vasilhas de PVC para ração de cães de rua.

2 – Conclusão da BR-156, rodovia que liga Macapá, no sul do Estado, a Oiapoque, ao Norte, e, por ponte sobre o Rio Oiapoque, a Caiena, a capital da Guiana Francesa. Por meio dessa estrada o Amapá poderá escoar produtos armazenados no Porto de Santana para as Guianas, bem como receber turistas da Europa e da Guiana Francesa, além de que essa rodovia liga praticamente todas as cidades do Amapá. 

3 – Estatizar o Porto de Santana, que é administrado pelo município de Santana, sem condições de fiscalização e ampliação do porto, o que o torna interessantíssimo para o narcotráfico transnacional. O Porto de Santana é o mais estratégico da Amazônia, pois tem calado para transatlânticos e é o porto brasileiro mais próximo dos mercados dos Estados Unidos, Europa e Ásia (neste caso, via Canal do Panamá). De modo que pode receber commodity de toda a Amazônia e do Centro-Oeste e despachá-lo para todo o planeta. 

4 – Criar infraestrutura para a futura produção de petróleo na costa do Amapá. 

5 – Criação de uma polícia marítima para vigiar, juntamente com a Marinha de Guerra, a costa setentrional, paraíso da pesca pirata predatória internacional. 

6 – Criação de cursos superiores de oceanografia e engenharia naval, de pesca, florestal e agronômica. 

7 – Ligação rodoviária com o resto do país via ponte sobre o Rio Jari. 

8 – Estímulo à criação de escolas técnicas e escolas militares. Recuperação dos prédios ou instalações de bibliotecas públicas, compra de livros novos, jogar fora livros bolorentos e recuperar obras com valor histórico. 

9 – Doação de prédio para sede da Academia Amapaense de Letras (AAL), principal instituição cultural do Estado. 

Para Macapá e demais cidades do Estado: 

1 – Instalação de redes de esgotamento sanitário e de águas pluviais e garantia do fornecimento de energia elétrica e de água tratada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A noite é só nossa


RAY CUNHA

 

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria

Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro

Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois

No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene

É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio

Ao largo de Marajó

Ver rosas nuas em toda parte

Só de te esperar!

Amor da minha vida, esta noite será eterna

Porque nesta casa

Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus, para ti

Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu

Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida

E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960

Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias

E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando

E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione

E Amarcord, de Nino Rota

Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954

Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis

E será madrugada

A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma

Mulher amada

Vem logo

Pois a noite já chegou

Como um navio, um continente, uma galáxia

Só nossa!


Do livro DE TÃO AZUL SANGRA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

 

THE NIGHT IS OURS ALONE 


RAY CUNHA

 

My love, I’m waiting for you, trembling with joy, 

For waiting for you is like the thrill that grips a gold prospector 

When, ten years later, he strikes the greatest gold nugget of his life 

On Salamangone Hill, in the Serra Lombarda, in the municipality of Calçoene. 

It is like the happiness of embracing children who have survived a shipwreck 

Off the coast of Marajó. 

Seeing naked roses everywhere— 

Just waiting for you! 

Love of my life, tonight will last forever, 

Because in this house 

There will be only you and me, and the night, God’s gift, meant for you. 

I’ve made all the arrangements: the flowers, the wine, the food— 

Camusquim with river prawns. 

It will be you and me, and the diamonds I have mined all my life, 

Diamonds found only in the skies above Macapá, in August, back in the 1960s. 

We’ll listen to La Cumparsita, sung by Julio Iglesias, 

And dance slowly, our lips brushing against each other. 

Then we’ll listen to Suave é a Noite, sung by Alcione, 

And Amarcord, by Nino Rota. 

And then, flying on the wings of Dom Pérignon, vintage 1954, 

I will drink your colostrum and taste the flavor of your skin and your pubic mound. 

And dawn will come, 

And to the dawn I shall offer your moans, 

Scattering them through the garden of my soul. 

Beloved woman, 

Come soon, 

For the night has already arrived, 

Like a ship, a continent, a galaxy— 

Ours alone!